quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Linguagem nordestina


A Língua Portuguesa, aportada ao Brasil há mais de quinhentos anos, constitui-se um sistema extraordinariamente rico, que permite a comunicação entre os seus atuais 210 milhões de habitantes a despeito das inúmeras variantes de uso espalhadas nas diversas regiões. A unidade na estrutura da língua e a pluralidade revelada nas situações de comunicação pelos falantes são os pilares que asseguram a indispensável grade fixa, comum aos usuários, e a rica diversidade glossológica condicionada por fatores diacrônicos (tempo), diatópicos (espaço) e diastráticos (social). Para exemplificar, a expressão pro mode caracteriza a condição social e talvez econômica do locutor. Por outro lado, o vocábulo bacana, ainda frequente, porém em via de extinção, denuncia mais ou menos a idade do falante, porquanto termo empregado por uma geração mais provecta. E um arrastado abestado provavelmente sinaliza para a inconfundível origem nordestina de um cabra da peste.

Limito a presente anotação a matutar sobre palavras e expressões condicionadas ao fator diatópico, mais precisamente acerca da linguagem peculiar praticado na região Nordeste, o cearês, ou dialeto cearense, que engloba quase todo o Estado (tirante o Cariri), parte do Piauí e parte do Maranhão. Tal dialeto coexiste ao lado de outros, como o baiano, o gaúcho, o amazônico, o recifense, o cuiabano, o florianopolitano.
Torna-se oportuno o registro, uma vez que são inúmeros os falantes de outras localidades, que afluíram em expressivo número na última década para o Estado e por causa do desconhecimento de uma série de palavras e expressões pelo público coestaduano influenciado, entre outros condicionantes, pela linguagem globalizada dos meios de comunicação.

Tais variações dialetais são riqueza do idioma pátrio e sinais peculiares e marcadores de nossa cearensidade.
Eis alguns exemplos do cearês com breves comentários e registros extraídos do cordel.

1.Abortado
Três significados: a) aquele que foi abortado, parido antes da gestação completa. Também indica o que foi produzido antes do tempo. b) malogrado, frustrado, gorado. Exemplos: O negócio foi abortado. O golpe militar foi abortado pelo governo. No cearês, porém, não é nada disso. Abortado se chama o indivíduo de sorte, feliz. Exemplo: Esse cara é um abortado, nasceu com a bunda para a lua.
Veja seu emprego na estrofe de Anilda Figueredo da Academia dos Cordelistas do Crato:
Há sujeito que tem sorte
Mesmo um desmantelado
Escapa de endemia
De polícia e delegado
De acidente e perigo
Pois é aí quando eu digo
Só tendo sido abortado!

2. Afobado
Significados:
pessoa impaciente, agoniada, inquieta, nervosa, apressada, raivosa. Aplica-se ao tipo atrapalhado, avexado, em função de pressa excessiva ou de
impaciência. Exemplos: O jogador afobado chutou a bola para fora. Quem é afobado, come cru ou queima a boca.
Estrofe de Ulisses Germano, cordelista do Crato:
Uma pessoa afobada
É nervosa e inquieta  
Anda sempre agoniada
E tudo em volta lhe afeta  
É no gesto aligeirado  
Que o trejeito do afobado
Perde prumo, perde a reta.


3. Baitinga
Origem:
vem de baitola. Há uma etimologia talvez fantasiosa que diz que o termo nasceu na construção da primeira estrada de ferro no Ceará. O capataz encarregado do assentamento dos trilhos era de origem inglesa e possuía modos efeminados. Tinha ela a preocupação com o espaçamento padrão entre os trilhos, chamado de bitola. Por influência da língua materna em que o i tem o som de ai, gritava com frequência o termo baitola em vez de bitola. Os peões por causa disso começaram a chamar o capataz de baitola.
Significado: homossexual, gay, balde, veado, fresco, bicha.
Empregado também para xingar alguém. Baitinga, apontado em epígrafe, é termo menos ofensivo que os anteriores. Usa-se muito nas brincadeiras entre amigos. Geralmente, não possui conotação depreciativa, dependendo, é claro, da entonação de quem emprega o termo. Exemplo: E aí seu baitinga não vai me emprestar a moto, não?
Estrofe de Bastinha Job (da Academia de Cordelista do Crato)
Digo com convicção
Nem preciso de mandinga
Pois falo com precisão
O sinônimo de baitinga
É o cara afrescalhado
É o popular veado
Tem na rua e na caatinga.


4. Birita
Significado: cachaça, pinga, aguardente, por extensão qualquer bebida alcoólica. Apelido que se acrescenta a um nome de um cachaceiro, como Chico Birita, Manel Birita.
Estrofe de Aldemá de Morais, da Academia dos Cordelistas do Crato
“Birita” é o nome dado
 A um tipo de cachaça
 O caboclo no engenho
Bebe em cuia de cabala
É vendida em botequim
Seus clientes: “papudim”
“Pé inchado” e “arruaça”.

5.Boca quente
Significado: lugar ou situação perigosa.  Exemplos: Rapaz, não vá para aquela favela, porque lá é boca quente. O deputado enfrentou uma boca quente ao conversar com os eleitores.
Estrofes de Josenir de Lacerda, cordelista do Crato:
Um perigo é boca quente
Porco novo é bacurim
Atrevido é saliente
Quem não presta é corja ruim
Dedo duro é cabueta
A perna torta é zambeta
Coisinha pouca é tiquim.
......
Quem se mete em boca quente
Enfrenta risco e perigo
Está sujeito a uma surra
Ou mesmo ao pior castigo
Com encrenca se depara
Termina quebrando a cara
Ou arranjando inimigo.

6. Do tempo do bumba
No tempo do bumba meu boi. Significado: De uma época muito antiga. São do tempo do bumba a época dos bondes em Fortaleza; a escada rolante da Lobrás; o hábito de tomar pega-pinto na Praça do Ferreira, de lanchar no Abrigo Central; comprar nas Casas Pernambucanas do centro da cidade; fumar cigarro Bebê; tomar banho de chuva nas bicas da casa; andar no Circular da Empresa Moreno.
Estrofe de Nezite Alencar (Academia dos Cordelistas do Crato)
O que  é "tempo do bumba"?
É tempo velho passado,
Aquilo que não é mais,
Mas será sempre lembrado
Tudo que saiu de moda
E está no baú guardado.

7. Eita pau
Interjeição usada no Nordeste para exprimir espanto. Há uma tênue distinção entre Eita e Eita pau. Significados: Eita (sozinho) exprime espanto, surpresa, contentamento, vibração, estímulo. Exemplos: Eita, vida. Eita, bicho feio. Eita pau é também espanto, surpresa diante de algo ruim. Diz-se também Eita ferro!
Luiz Gonzaga tem o verso: “Eita, Paraiba, mulher macho sim, senhor”.
Estrofe de Dalinha Catunda da Academia Brasileira da Literatura de Cordel do Rio de Janeiro.
Eita pau! Papai dizia,  
Quando eu fazia besteira:
Esta menina levada
Vai entrar no pau pereira!
Batia, sim, sem ter dó,
Descia mesmo o cipó,
Nesta morena brejeira.

8. Em riba
Riba é a margem elevada de um rio; colina sobranceira a um rio; ribanceira.
Dois significados: a) tudo em cima tudo bem, tudo certo. b) além do mais.
Exemplo: Não me pagou, ainda em riba, me disse uns nomes feios.
Estrofe Bastinha Job (Academia dos Cordelistas do Crato)
 Tá em riba é tá trepado
Aqui no nosso Nordeste
Um termo bastante usado
Na cidade e no agreste
Tô em riba, tô por cima  
Trepo no metro e na rima
E não há quem me conteste.

9. Escambau
Origem provável: no Brasil Império, era comum os portugueses que aqui viviam fazer o escambo, que consistia na troca direta de mercadorias sem o uso de moeda corrente, na maioria das vezes, gêneros de última necessidade, em uma grande feira chamada escambau. A tese mais plausível, porém, é de que o termo deriva a palavra de cambada (porção de coisas, cambulhada), pela “alteração de sufixo para -al, ‘grande quantidade’, e depois grafado com -u, seguindo a pronúncia do -l  final, predominante no Brasil”.
Escambau tem duas acepções básicas. A primeira e mais empregada é a de “mais um monte de coisas”, um “et cetera.” informal e enfático. Refere-se a um conjunto alargado de coisas, mencionadas ou para além das já mencionadas. Exemplo: Saiu de férias levando barraca de camping, fogareiro, papagaio e o escambau. A segunda acepção faz de escambau uma espécie de interjeição de negação, substituindo palavrões em frases como esta: Vítima da sociedade, o fulaninho? Vítima o escambau!
Trova do cordel de Josenir de Lacerda:
Bater fofo é não cumprir
Etecetera é escambau
Sujar muito é encardir
Quem acusa, cai de pau
Confusão é funaré
Carta curinga é melé
Atacar é só de mau.

10. Distreinado
Sentido no cearês: sem graça, encabulado. Exemplo: Depois que fez esta besteira, ficou todo distreinado.
Trova de Josenir de Lacerda, famosa cordelista.
Se o sujeito tá confuso
Tristonho e encabulado
Com vergonha, constrangido
Feito um cão escorraçado
Tem gente que olha e diz:
- Aquele pobre infeliz
Tá sem graça, "distrenado".
11. Xeleléu
Sinônimos: a) babão; baba ovo, adulador, capacho, chaleira, escova botas; lambe-botas.
b) caminhão pau de arara, de retirantes nordestinos.
O termo xeleléu é muito usado também no Rio Grande do Norte e tem um efeito bastante expressivo.
Verso de Josenir de Lacerda, poetisa multicitada: 
A rede velha é fianga
Com raiva é aporrinhado
Careta feia é muganga
Baitinga é mesmo o viado
Bajulador, xeleléu
Sem jeito é malemanhado.

12. Ispiricute
Origem: Influência da presença dos soldados norte-americanos no Ceará. Durante a Segunda Grande Guerra, os americanos usaram durante alguns anos a Base Aérea de Fortaleza como ponto de apoio antes da viagem para o Norte da África e o sul da Itália. Havia as famosas Garotas Coca-Cola, meninas da sociedade local que nos finais de semana se aprontavam para paquerar com os garbosos pilotos e oficiais americanos.
Origem provável: vem do inglês "she's pretty cute".  Usado no Nordeste e termo muito comum no Ceará. Sentidos; Desinibida, faceira, bonitinha, faceira, vaidosa. O termo foi usado no filme Cine Holliúdy de Halder Gomes.
Mais um estrofe de Josenir de Lacerda, multirreferenciada cordelista:
Se cheia de babailoque
É ispiricute ou dondoca
Ligeiro é “que nem um traque”
Agachado é tá de coca
Sem rumo é desembestado
O faminto é esguerado
Bolha na pele é papoca.

13. Abiúdo
Tem sentido pejorativo. É a corruptela de abelhudo (palavra dicionarizada). Trata-se de pessoa curiosa, que quer saber de tudo, fofoqueiro, intrometido, indiscreto, curioso, importuno, indivíduo que se mete nas conversas, dar palpites na vida dos outros. Exemplo: Essa menina é muito abiúda.  
É do cordelista Henrique César Pinheiro este verso:
Ele não é diferente
É também muito abiúdo
Se faz de abirobado
Para se meter em tudo
Também só vive melado
Fedorento, bem imundo.

14. Ruçara
Talvez venha de juçara,(palmeira delgada e alta). O vocábulo é usado por Pedro Nava, que é de origem cearense, no livro Chão de Ferro.
Significa “coceira de origem alérgica. É o comichão produzido pelo contato com diversas espécies de planta com a pele humana, por exemplo com a ramagem do feijão, com o arrozal, milharal, com cipó de fogo.
Ruçara está catalogada entre as doenças que somente nordestino tem, como dores nos quartos, dor nas juntas, difluço, espinhela caída, tosse de cachorro, gastura, dor de viado, vista cansada, estalecido, doença nos nervos, fervião no corpo, passamento, nó nas tripa, frieira,dordói, remela nos zói, curuba, pito frouxo. O cordelista Henrique César Pinheiro registra as dificuldades para se reconhecer doença de nordestino:
Sem conhecer nossa língua
E as doenças tropicais
Que em muitas medicinas
Não faz parte dos anais
Além das dificuldades
Das falas regionais.

Moco, tosse de cachorro,
Caduquice, pé inchado,
Queimadeira, farnizim,
Brotoeja, empazinado,
Ruçara, canela triada,
Vento caído, empachado.

15. Catrevagem
Derivado de catervagem, de caterva (grupo de pessoas, de animais ou de coisas, de pessoas ordinárias, desordeiras, malta, súcia). Três sentidos: a) grande quantidade de objetos; sobras de material de construção; sucata; objetos sucateados. Coisas em desuso, sem serventia.  Resto de coisas velhas reunida em determinado lugar. b) reunião informal, encontro casual, bate-papo divertido, animado. c) mulher feia, magra, que ninguém quer mais.
Verso de Carlinhos Cordel (de Pernambuco)
Distração, brincadeira
Lá se chama fulerage
Também algo que não presta
Porcaria ou catrevage
O Ceará tem cultura
E uma bela linguagem.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Um outro Brasil está germinando.

Imagem: httpr://pixabay.com
Existe um Brasil obsoleto, que parasita instituições e engorda às suas custas. Esse Brasil não tem peso na consciência, gira com risíveis eixos no centro de seus interesses. É o Brasil dos “espertos”, do salve-se quem puder, um Brasil de méritos restritos à habilidade de bem navegar nas tramas do covarde poder já estabelecido; um Brasil que ingenuidades como a minha insistiam em negar, talvez por incapacidade de navegar em seus meandros. A questão de tempo que nos separa de um país decente agora impacienta. É o que acontece quando se para de negar a realidade. Em passo mais lento do que gostaríamos, ocorrerá, sim, a tão sonhada transição entre um Brasil de feitores, de arremedos de gente que assimilou o caráter do explorador europeu e se abancou de setores públicos maiores ou menores, como se fossem os donos da quitanda, e uma classe de gente mais técnica, indisposta a favores e beija-mãos. O país compulsivamente corrupto, nas mais diversas instâncias, não tarda a cair. É questão de putrefação, de irrefreável evolução. A renovação inevitavelmente se dará. Mesmo quem ainda, por alguma sorte de malemolência ou ocasião, agradar ao caquético modelo feudal e nele conseguir penetrar já será infinitamente superior a quem dele outrora se apossava. Os velhos coronéis cairão. O anacronismo entre decadentes brutamontes com delírios de rei Sol e o desejo de idoneidade da grande maioria torna-se cada dia mais patente. Num prenúncio de novos tempos, as raposas políticas já farejam seu pouco tempo de vida. Negam, explodem de raiva, barganham. Ocultos sob a sombra de uma enorme comoção nacional, pervertem medidas anticorrupção de iniciativa popular. Enquanto nosso legislativo faz o que não deve para prosseguir na farra com o dinheiro alheio (estima-se o custo anual de cada parlamentar em dez milhões e duzentos mil reais), o povo brasileiro se articula para voltar às ruas. Só a pressão popular pode levar o velho esquema à agonia. Que a ingenuidade não leve consigo a esperança! Um outro Brasil está germinando.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Por que as ideias não mudam, mas sim seus defensores?






Duas frases soltas:

“Vamos propor reformas que alteram permanentemente a taxa de crescimento de nossas despesas primárias. Queremos discutir com o Congresso a fixação de um limite global para o crescimento do gasto primário do governo para dar mais previsibilidade à política fiscal e melhorar a qualidade das ações de governo".

“Nos cabe enfrentar desafio maior para política fiscal, que é a sustentabilidade da Previdência Social em um contexto de envelhecimento da população (...) Mantidas as regras atuais, o percentual tende a aumentar exponencialmente. (...)”

Esta frase poderia ter sido dita pelo atual presidente da República, Michel Temer, mas foi dita pela ex-presidente da República, Dilma Rousseff, seis meses antes de ser deposta do cargo.

Em apenas seis meses, os discursos se mantem, as discussões se mantém, mas inverteram-se os jogadores. Se seis meses antes, o governo do PT defendia controle dos gastos, e a oposição defendia aumento dos gastos, hoje, o governo continua a defender controle dos gastos, e a oposição continua defendendo aumento dos gastos, mas os políticos que eram governo há seis meses hoje são oposição e vice-versa. Quão coerente é ver os senadores do PT tentarem impedir uma lei que limita o aumento das despesas do governo federal se, há menos de um ano, isso houvera sido uma ideia deles? Quão coerente é ver o PSDB defendê-lo se, há seis meses, eram veementemente contra?

Na verdade, esse jogo de farsas político sempre existiu desde que surgiu a política. O político, o governante, sempre busca o que for mais popular, ou, caso não seja possível, sempre irá encontrar argumentos para justificar suas restrições. O que inquieta, no entanto, é a contaminação da população por esse jogo sujo. Não há sentido num ex-defendor da austeridade da presidenta de há seis meses hoje estar sendo contra a austeridade do presidento. Por que isso ocorre?

Uma possível resposta para isso seja o método de tomada de decisões ou de obtenções das verdades. Em outras palavras, “de que maneira um brasileiro se informa e decide sobre suas opiniões”. Hoje, claramente, há dois grupos antagônicos em nosso país, os que continuam defendendo o governo deposto e os que o atacam. O grupo dos que defendem o governo deposto se tornou um grupo pequeno, formado em grande parte por jovens de pensamento esquerdista das áreas humanas das faculdades. De que modo um estudante de filosofia encontra as respostas às suas perguntas? De que modo a psicologia encontra a resposta às suas perguntas? Diante de uma questão, por exemplo, “ovo de galinha aumenta o colesterol do sangue?”, de que modo será comprovada a tese do “sim” ou do “não”? A ciência moderna desenvolveu ferramentas interessantes para se buscar essas questões, aliando a experimentação e a reprodutibilidade. Nas ciências humanas, as variáveis de estudo são no entanto bem menos exatas, como confirmar se “o sonho tão vívido com um ser da mitologia grega tem algo a ver com o trauma psicológico de um estupro 10 anos antes?”. Nas ciências humanas, mais ainda, questiona-se se há verdades. Quando Freud disse que um sonho poderia ter um significado, ele acabou com a verdade. A verdade deixou de existir. Hoje não se busca “verdades”, hoje se busca “construção de ideias”. O esquerdista que hoje critica a austeridade da lei do controle de gastos não consegue ver incoerência por defende-la seis meses antes, pois, há seis meses, estávamos “em outro momento político”. Simples assim. As verdades, para uns, são moldáveis mais ou menos facilmente. “O objetivo da Dilma com a austeridade era ajudar os pobres, enquanto que a austeridade deste governo golpista quer aumentar os lucros dos banqueiros”.

Diante de questões aparentemente simples, como “o governo tem que gastar aquilo que arrecada”, a população encontra argumentos e discussões os mais variados. Mas não há lógica, não há um raciocínio cartesiano nestas confabulações. Às vezes, há verdades! Às vezes, discordar das verdades é simplesmente estar errado! O político não se preocupa com isso, apenas quer votos, mas nós, o povo, não podemos cair no discurso maniqueísta de um político. Para nós, o povo, há verdades! Nós não mudamos de lado, seremos sempre povo, seja quem estiver no governo. Não podemos cair nesses jogos.

Discurso de que o governo não tem dinheiro será sempre o discurso do governo. Seja o governo militar, seja FHC, Lula ou Michel Temer. Discurso de que dá pra fazer mais sempre será o discurso da oposição, seja ela quem for. No Império já se dizia “Nada mais parecido com um conservador do que um liberal no poder, e nada mais parecido com um liberal do que um conservador no poder.”


A cobra sempre morde o rabo.

sábado, 1 de outubro de 2016

“Voe feito uma borboleta, pique como uma abelha” - Muhammad Ali




Pensar o Brasil ou a sociedade brasileira caracteriza-se como um desafio complexo e em alguns momentos perigoso, algo comparado a colocar uma das mãos em uma colmeia, atrapalhando o repouso em berço esplêndido da abelha-rainha que, enfurecida pelo desrespeitoso ataque, irá responder com dolorosas ferroadas no subversivo invasor que resolveu atrapalhar a ordem social preestabelecida. No Brasil, a nossa colmeia, encontramos uma semelhante norma social em vigor, onde há uma determinação precisa e, geralmente imutável, da posição e função que cada abelhinha (brasileiro) apresenta nessa sociedade. Compreender esse arranjo coletivo é um dos caminhos que devemos trilhar para nos descobrirmos como brasileiros e nação.
Em  Casa Grande e Senzala, livro publicado em 1933 pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, que aborda o patriarcalismo tropical e a gênese da sociedade brasileira, encontramos alguns acessos interessantes para compreendermos a  dinâmica sociocultural brasileira. Um deles é a formação do mito brasileiro, onde temos a exaltação do “mulato brasileiro” como fruto da miscigenação cultural dos brancos, principalmente portugueses, dos negros das várias nações africanas e dos diferentes indígenas que habitavam o Brasil. E é exatamente essa mescla que permitiu, segundo Freyre, o surgimento de uma sociedade com valores culturais ricos e diversos. Os conceitos apresentados em Casa Grande e Senzala refutam a visão à época de que os brasileiros seriam uma “raça” menor, originada pela miscigenação, um povo incapaz e inferior às “virtudes e qualidades” europeias. Essa ideia de submissão é retratada através da expressão "complexo de vira-lata", criada pelo dramaturgo e escritor brasileiro Nelson Rodrigues, originalmente referindo-se ao abalo emocional sofrido pelos brasileiros com a derrota para a seleção uruguaia na final da Copa do Mundo de Futebol em 1950.
Por infelicidade, sabemos que ainda hoje esses sentimentos de subalternidade e conformidade, não apenas estão vivos, como também são estimulados na sociedade brasileira. Qual seria a razão dessa lamentável condição? De maneira certa, apenas uma análise profunda da história social brasileira, realizada por “experts” no tema, talvez respondesse a essa questão, o que não é o meu caso. Porém, arrisco-me a especular que uma das razões seja o fato de que nosso país foi estruturado tendo como base uma sociedade escravocrata, que existiu no Brasil de 1530 até 1888, mas que ainda influencia sobremaneira a sociedade atual, ditando os nossos valores, conceitos e prejuízos que, em muitos momentos, transformam-se em preconceitos.
Essa realidade veio à tona nos últimos anos, quando observamos  avanços sociais que permitiram brasileiros com menor poder aquisitivo frequentarem cursos de nível superior, principalmente privado (a maioria  com qualidade contestável), comprarem eletrodomésticos e viajarem de avião para suas férias, em alguns casos, até para o exterior. Mudanças como essas, incomodaram e incomodam a nossa abelha-rainha, que não aceita dividir os privilégios da sua casta com abelhinhas operárias, afinal de contas, para a Apis mellifera mais simples, só é permitido atender às necessidades da rainha, provendo-lhe uma alimentação exclusiva, através da geleia real, e não sentar-se à mesa em paridade.
No Brasil, encontramos uma casta muito bem definida e estabelecida, que se vem propagando desde as capitanias hereditárias, um grupo político e econômico que detêm a maior parte da riqueza nacional, enquanto em muitos rincões do país, temos uma grande e crescente massa de miseráveis. Há inúmeras passagens na história do país que representam bem a nossa realidade. Pouco após o golpe militar, que derrubou o Império em 1889, o então Capitão Felicíssimo do Espírito Santo Cardoso, residente em Goiás e  bisavô do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, escreve ao filho alferes Joaquim Inácio Batista Cardoso, ironizando a jovem república que o filho ajudou a fundar. “Vocês fizeram a república que não serviu para nada. Aqui agora, como antes, continuam mandando os Caiado”. Outra emblemática passagem vem do livro Esaú e Jacó, escrito por Machado de Assis, em que o personagem Custódio, dono de uma confeitaria, mandou que se fizesse uma placa com o nome do estabelecimento “Confeitaria do Império”. Ocorre que a tabuleta foi pintada no dia do “Baile da Ilha Fiscal”, o último suspiro do Brasil monárquico. Para Custódio, seria perigoso manter o nome antigo. Após refletir entre “Confeitaria da República” ou “Confeitaria do Catete”, optou por algo mais simples. Por sugestão do Conselheiro Ayres, decidiu-se por uma terceira opção, em nada comprometedora, a padaria chamar-se-ia Confeitaria do Governo... “Depois lembrou a índole branda do povo. O povo mudaria de governo, sem tocar nas pessoas.” —  Machado de Assis, no livro “Esaú e Jacó”.
A história do Brasil, foi marcada por inúmeras “mudanças de placas” orquestradas pelo mesmo grupo, enquanto ao povo coube a marginalidade do processo. Mas qual a motivo de tamanha apatia? Provavelmente a razão seja a maneira como o brasileiro vê o brasileiro. Somos uma sociedade na qual a noção de respeito ao próximo só faz sentido quando o próximo é o seu próprio reflexo no espelho. Uma sociedade, onde o cidadão que critica condutas desonestas e corruptas dos políticos em Brasília é incapaz de respeitar normas básicas e princípios éticos no seu dia a dia. Muitos brasileiros não têm consideração por pessoas que não participam do seu círculo social, colocando seus interesses, mimos e vontades acima de todos. Nossa sociedade é machista, conservadora, racista, preconceituosa e elitista. Vivemos em um país onde a conta bancaria, influência social ou o fato de ser oriundo de cursos tradicionais como direito ou medicina, dão ao sujeito o direito de ser chamado de doutor, como forma de demonstrar sua casta superior. Somos a nação do “jeitinho brasileiro”, que descumpre as leis, destrói o meio ambiente, não respeita os idosos, mulheres e crianças. Somos a nação de altos impostos e baixíssima qualidade dos serviços públicos. Possuímos uma elite obtusa, alienada e demente, que acredita, entre outros absurdos, que a melhor forma de resolver questões associadas a violência urbana, é aumentar o número de policiais, em sua grande maioria corruptos e mal preparados, que comporta-se em relação à negros e pobres, tal qual o capitão do mato fazia com o “nego fugido”. Educar o povo, dando condições dignas de trabalho, educação e saúde, seria, na visão dessa elite, financiar o fortalecimento do “inimigo”, que irá, no futuro, buscando igualdade social, contestar os privilégios de pequenos grupos.
Se a relação do brasileiro com o próprio brasileiro é algo mesquinho, a nossa relação com os nossos políticos não é diferente. Criticamos, todos os dias, o excesso de corrupção, desgoverno e o anseio dos nossos políticos em atender apenas a interesses pessoais ou partidários. Apesar de parecer contraditório, pois vemos no dia a dias dos cidadãos comuns exemplos das mesmas ações que criticamos, temos em relação aos nossos políticos, uma relação de distância e desprezo. Não conseguimos enxergar que a existência de pessoas em cargos públicos que se sentem no direito de apenas buscar o favorecimento próprio, e não servir ao país, é um reflexo direto do que encontramos na nossa sociedade.
Atualmente, o Brasil passa por um momento de grande instabilidade política, somada a uma enorme debilidade econômica. Há algumas décadas, tivemos uma ditadura militar, um período nefasto que deixou marcas profundas na nossa sociedade. Nossa democracia ainda é frágil e o brasileiro não entendeu a importância que possui no jogo democrático.
Experimentamos recentemente um governo de esquerda “fake”, que se utilizou do argumento de mudanças sociais para realizar uma enorme pilhagem nos cofres públicos. Esse mesmo governo foi derrubado por um golpe político, liderado por grupos da velha e podre política brasileira, ansiosos por voltarem a dar as cartas.  Vimos mais uma vez que o bom e velho Machado de Assis estava certíssimo ao afirmar já no século  XIX, que se mudam os governos, mas os governantes e governados, jamais. Apesar das críticas que expus aqui, considero-me um homem otimista em relação ao meu país. Sei que o Brasil dos meus sonhos não será visto ou apreciado por mim. Nosso processo de mudança é lento e gradativo. Mas acredito em tempos melhores, e essas mudança virão dos governados e não dos governantes. Hoje vivemos em um mundo onde há mais informação para as pessoas, o que não significa mais conhecimento. Porém, vejo que estamos começando a entender o papel que temos em um país democrático. Estamos começando a entender, de forma lenta, eu reconheço, que a forma correta de pensar deve ir além do eu e da minha família, deve abranger o nós como nação. O que mais desejo hoje é que as próximas gerações façam, cada vez mais, altos e fortes zunidos para não deixarmos a nossa abelha-rainha repousar no seu eterno e confortável berço esplêndido.