domingo, 12 de fevereiro de 2017

Mais empatia, por favor

Muito me agrada compreender e colocar em prática a empatia. Longe de ser aquele papo clichê que anseia, sem esforço algum, se tornar alguém melhor ou apenas introduzir a expressão de forma corriqueira em meu vocabulário. Vai além. 

Costumo dizer que a empatia nos confunde muitas vezes em acharmos que praticá-la é apenas “simpatizar” por lutas diferentes das nossas ou “ter pena” de certo alguém e então o ajudar. Acredite, o caminho é outro.... Se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo suas perspectivas/sentimentos e usando essa compreensão para guiar as próprias ações tem o poder de promover profundas mudanças sociais quanto de transformar nossas vidas. É o nascimento de uma revolução nas relações humanas. 

Sou uma admiradora do Direito Constitucional, sendo assim, reflito bastante sobre nossa Constituição e, automaticamente, entro no viés de como é positiva a adesão dos direitos humanos na última Carta que nos segue até agora. Mas, como bem sabemos, a nossa Legislação está muito além da realidade, faltando compatibilidade necessária entre seu aspecto formal e o que existe de fato.

Então, sem grandes esforços, penso na poderosa ligação em que o uso da empatia se faz necessária para enfrentarmos as crises e ultrapassar todos esses problemas de política, pobreza, intolerância religiosa e até mesmo essas divisões sociais que o abuso dos direitos humanos nos traz.

Também penso em como a ideia (e de certa forma, quase que uma teoria aplicada por alguns autores) de que as emoções ficam de fora de uma decisão judicial, por exemplo. Como é definido um bom juiz, então? Um magistrado com a finalidade de obter a melhor solução, a qual deve satisfazer não apenas as partes envolvidas, mas também à própria sociedade. Mas será que apenas com o conhecimento técnico, vivência, capacidade de observação e sua experiência ele alcançaria? Eu não tenho dúvidas de que uma profunda postura empática, face aos problemas que lhes são apresentados, tem total importância e rumo para as suas decisões.

E, se a finalidade de uma ação judicial é de atender a uma necessidade e resolver uma situação de disputa, a empatia se encaixa perfeitamente para aliviar o mal-estar ou evitar mais conflitos, certo? Os advogados que os digam.

Como estudante de Direito, não fugi do rumo que o texto tomou e segui nos exemplos básicos dentro da área jurídica concluindo como a sua aplicação se desenvolve de forma discreta e como pode ser ainda mais explorada.

Mas, esse texto ultrapassa a intenção de citar algumas conclusões ou exemplos da empatia no meu querido Direito. Minhas palavras aqui ultrapassam esta área e tentam demonstrar como é simples e bonita a possibilidade de melhorar a nossa vida, pessoal ou profissional, através de um sentimento que já nasce com a gente. Ter equilíbrio, ser um ser humano altruísta e proativo não é fácil, requer paciência, que requer a arte de colocar em prática toda a sabedoria adocicada pela sutileza da espera.

Aos 18 anos conheci o livro “Uma ética para o novo milênio” do Dalai Lama em que também tratava sobre a empatia e dava um toque especial ao apresentá-la como um bom remédio para a ansiedade a qual se faz presente tão intensamente em nós.

“As coisas e acontecimentos só ocorrem como resultado de inumeráveis causas e condições. Nossa tendência é nos concentrarmos exclusivamente em um ou dois aspectos do que está acontecendo. Ao agir assim, inevitavelmente nos limitamos a procurar meios para superar apenas aqueles aspectos. O problema é que, quando não os encontramos, corremos o risco de cair em total desânimo e desorientação. O primeiro passo para superar a ansiedade é, então, desenvolver uma perspectiva adequada da situação.

Podemos fazer isso de diversas maneiras diferentes. Uma das mais eficazes é procurar desviar o foco da atenção de nós para os outros (...).

Bem, de forma saudável esse trecho me inspira e senti a necessidade de compartilhar. Quando desejo e peço mudanças eu também as ofereço, da minha forma, mas ofereço, e a minha escolha é a empatia. Pratico de forma saudável e motivadora. 


Não perde tempo e também escolhe a tua, quem sabe um grande segredo coletivo não está aí...

sábado, 4 de fevereiro de 2017

“Pátria Madrasta Vil”: uma revolução silenciosa em curso?

Descobri recentemente um texto intitulado “Pátria Madrasta Vil”. A composição, de autoria de Clarice Zeitel Vianna Silva, na época estudante de direito na UFRJ, venceu, junto com mais 99 textos, um concurso nacional organizado pelo jornal Folha Dirigida e UNESCO Brasil, envolvendo 50.000 candidatos. O ano era 2008. A UNESCO patrocinou a iniciativa como meio de apoio à divulgação dos oito objetivos para o desenvolvimento do Milênio aprovados pelas Nações Unidas em 2000 por 189 países, entre eles o Brasil, a serem trabalhados até o ano 2015. Dentre os objetivos, constavam a eliminação da pobreza e combate à desigualdade, temas centrais do referido concurso. Os 100 textos foram reunidos e publicados em uma coletânea disponível na biblioteca virtual da UNESCO. Para os interessados, o livro é acessível no seguinte endereço: http://unesdoc.unesco.org/images/0015/001576/157625m.pdf

O texto-poema de Clarice acabou naquela época ganhando destaque nacional. A autora foi convidada em diversos eventos. O conteúdo provocador e ácido incendiou as redes sociais, seja para ataca-la ou defende-la, alvo de críticas e elogios, tanto na forma como no conteúdo do texto. Por ser extenso, só reproduzirei aqui os primeiros versos e comentarei outros trechos. Reitero portanto meu convite aos interessados para acessar o retro mencionado link e consultar a versão integral.

Assim começa o poema intitulado “Pátria Madrasta Vil”:


“Onde já se viu tanto excesso de falta?Abundância de inexistência...Exagero de escassez...Contraditórios?Então aí está!O novo nome do nosso país!Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.”

Partindo de um trecho do hino nacional, “dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada, Brasil”, Clarice elabora uma extensa argumentação rejeitando a parábola ora proposta de “mãe gentil” para a pátria Brasil. Em subsequentes versos, sublinha contradições, enganações, hipocrisias e ilusões vividas por sucessivas gerações de cidadãos “que não aprenderam a ser cidadão” (sic).

No decorrer de sua aclamação, acaba enaltecendo a necessidade por mudanças estruturais, revolucionárias, que “quebrem esse sistema-esquema social montado” através de mudanças que, de fato, transformem e não simplesmente reproduzam os referido esquema sob novas máscaras.

Ela reconhece, no entanto, que para tal mudança ocorrer, falta um fator fundamental que permita o alcance da igualdade na sociedade brasileira: “nossa participação efetiva”. Finaliza afirmando que somente uma revolução estrutural “de dentro para fora e que não exclua, nada nem ninguém de seus efeitos” conseguirá acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil, pedindo portanto um posicionamento individual perante o mundo, perante o coletivo, que ela resume na expressão “cada um por todos”.

Não é minha intenção neste artigo julgar ou revisitar o debate da época. Como já disse, muito já foi escrito a respeito em trocas extensivas de opiniões e contra afirmações para as quais pouco teria de interessante a somar. Quase uma década se passou desde então. Os objetivos onusianos do milênio estabelecidos para 2015 foram reconduzidos em essência, mesmo que sob renovadas luzes, na chamada agenda “pós 2015”. O grito de Clarice quanto à problemática estrutural brasileira, parece-me, ganhou novo destaque com os acontecimentos destes últimos anos, independentemente dos julgamentos de valor sobre a veracidade ou coerência das afirmações por ela listadas.

O fato é que a leitura do texto me remeteu aos ensinamentos de um professor de filosofia chileno, Luiz Razeto, que veio compartilhar visões da academia sobre os contextos e condições de criação de uma nova civilização, durante conferência, ano passado, em um congresso sobre cidadania planetária em Fortaleza – CE.

Não pude deixar de reparar que certas das afirmações de Clarice ecoavam no discurso do professor. Para resumir, irei manter-me no eixo em torno do qual este desenvolveu sua apresentação: a capacidade de inclusão como fator fundamental a partir do qual pode-se avaliar a sobrevivência de uma civilização ou nascimento, em meio a muitas turbulências, de uma nova civilização enquanto a antiga se desintegra, seja gradualmente, seja abruptamente, em processo caótico de transição até que os novos paradigmas consigam sobrepor-se aos antigos.

O professor enfatizou que, enquanto a deterioração acontece essencialmente à nível macrossocial nas grandes e condicionadas estruturas políticas, econômicas e culturais que começam a não mais conseguir cumprir com suas missões, a nova civilização só pode começar a nível microssocial, demandando participação cidadã ativa e, claro, bastante tempo, através de iniciativas particulares e concretas.

Clarice, em seu poema, lançou um grito um tanto pessimista sobre a situação da sociedade Brasileira, lamentando a ausência do cidadão para que transformações consigam nascer e se desenvolver. Dez anos depois, à luz dos eventos mais recentes e observações pessoais, portanto, sujeitas a clara subjetividade, devo confessar certo otimismo apesar dos obstáculos e situações enfrentados nas grandes estruturas da sociedade.

Vejo cidadãos mais ativos, cobrando posturas, quaisquer que sejam, em debate caloroso e saudável sobre tais estruturas. Mas também vejo inúmeras iniciativas concretas de ajuda ao próximo. Brasileiros estão cada vez mais engajados em ajudar em associações, ONGs e outras entidades, formais ou informais para auxiliar os necessitados. Á nível mais pessoal ainda, vejo mudanças em perfis de consumo, uma consciência mais esclarecida surgindo sobre a necessidade do respeito à natureza. Virou rotina o uso dos espaços públicos e de trânsito na cidade, para esporte e passeios nos fins de semana, envolvendo família e amigos, espaços que até pouco tempo não eram usados para tais.

Seguindo a raciocínio proposto pelo Professor Razeto, uma transformação estaria de fato ocorrendo à nível microssocial, talvez ainda tímida, minoritária mas ganhando novos adeptos em ritmo acelerado pelo que consigo testemunhar. Em menos de 10 anos, em meio à uma crise sistêmica, saímos de uma situação de lamentação e críticas ásperas para uma nova era de ação local engajada, servindo de exemplo multiplicador. Como mencionado em artigo escrito por uma das coautoras do Matutando o Brasil, “um novo Brasil está germinando”. Sim, Clarice, a sua sonhada revolução parece já estar em curso, talvez ainda silenciosa, mas bem real. Não há mais lugar para exacerbado pessimismo. Por mais que muito haja a ser feito e enfrentado, a roda brasileira da fortuna começou a girar, incentivando participação cidadã ativa. Paremos de focar o que não funciona e elejamos a ação local, aquela bem ao nosso alcance como método eficaz de verdadeira e testemunhável transformação. São estas ações que renovam energias e esperanças favorecendo a construção de um país e, por consequência, de um mundo menos pobre e desigual, fundamentado na prática da inclusão e do respeito a si mesmo, ao próximo e à natureza.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"O Terrível Capitão América"


*texto publicado originalmente no jornal O POVO em 2012

Tenho muita desconfiança e receio dessa mania norte-americana, à vista grossa da cenográfica ONU, de “assumir as dores de todo o mundo”, feito um indesejado Super-Homem ou qualquer um desses heróis de meia-tigela que sobrevoam os céus de cuecas ao avesso (nunca entendi isso) e o imaginário desse povo ególatra, ruim de geografia, tarado por basquete e que enfeita tudo com gergelim, fritas e bacon.
Os Estados Unidos, num american dream, enriqueceram na base do comércio e fabricação de armas, ou de largos empréstimos para a sua compra, mantendo acesas as guerras e o terrorismo no mundo, cúmplice silencioso em discursos de piece and love,  fazendo o seu próprio terrorismo, o econômico-predatório, o que devasta — sem comida, sem água, sem recursos e sem jeito — os países que nem queremos saber que existem, pois são, em sua maioria, dominados por ditadores broncos, líderes fanáticos, habitados por gente pobre, “atrasada”, não-cristã e doente, repletos de pestes da moda (Aids/Sida, Ébola) ou mesmo as históricas, já extintas nos demais países, e outras novidades do Oriente. Esses povos que, se escaparem de tudo isso isso, ainda lhes restará a fome, a sede, a violência, a humilhação, o desprezo, o estupro, enfim, uma série de mazelas que “não nos dizem respeito” porque somos “emergentes”, já fomos pobres, “zés cariocas”, hoje, não, somos abençoados por Deus e bonitos por natureza, exclusive os milhares de brasileiros que ainda não entenderam direito o tal american way of life.
São muitas as histórias de personagens americanos que, por não agradarem a inteligência pentagonal, acabaram “comendo capim” cedo, geralmente mortos por tiros de um doido que vinha passando na rua e blá-blá-blá. Mistérios indissolúveis do senhor Columbo, via “efibiai”, “siaiei” e “mibi” na série “Acredite se Puder”.
Não vou mentir. Senti-me enojado com o clima de celebração transmitido pela TV mundial, via Casa Branca, após o assassinato do Mister Bin (Osama Bin Laden). Triste o ufanismo daqueles a aguardar a desejada execução e a não surpreendente “vitória” americana — por conta disso, em único dia, o Barack Hussein Obama (nome irônico...) aumentou em 9 pontos a sua expectativa de reeleição, o dólar aumentou sua cotação e os índices da bolsa americana subiram.
E mais: mataram a cobra e não mostraram o pau. Cadê o homem? Jogaram no mar, enrolado em branco, respeitando-lhe os rituais da crença... Que comédia é essa?
Por isso lembrei também de quando eles mataram o Che Guevara, este que hoje enfeita as camisas dos revolucionários ou pseudo-revolucionários (pelo menos ajuda a ganhar a mulherada na faculdade ou se passar por um “mente aberta”). A comemoração foi daí para melhor, com direito a troféu e tudo (como aqui bem os imitaram com a exposição do Marighela). Não estou comparando o Che com o Osama. Aliás, este cabra santo não era — como não é o Obama nem o Lula —, mas não posso aceitar que os Estados Unidos tomem nas mãos a soberania de países alheios, principalmente quando inventam motivos para destruir seus inimigos, às vezes, ex-aliados, às vezes, gente que sabe demais (ou de mais). Sempre tão culpados de tanta coisa, têm, a seu favor, o poder da imagem, o homem-aranha, os programas, Hollywood, a Coca-Cola, o Toy Story e, infelizmente, o Dr. Jivago, que originalmente é russo.
Quando os MacAmericanos, similares ao seu herói genocida Custer, invadiram o Iraque com a justificativa de acabar com as armas químicas, tipo assim, “Putz, foi mal, não encontramos, ó”, mesmo após tanta devastação, ainda fizeram desserviços à humanidade, como: saque de milhares de objetos do Museu do Iraque (entre eles, dezenas de esculturas assírias em marfim); a destruição de sítios arqueológicos sumérios (povo que inventou a escrita em 3.000 a.C.), por ação de bombas ou para serem transformados em heliportos e estacionamento de veículos militares; a perda do acervo de manuscritos sobre a civilização mesopotâmica, por incêndio da Biblioteca Nacional do Iraque no dia da conquista de Bagdá; danos ao Portão de Ishtar, a entrada principal da Babilônia, que resistiu à destruição pelos Persas no século VI a.C., mas que, ao povo norte-americano se rendeu.
 Cabe bem daí a nossa atenção. Pode ser que um dia eles cismem em nos tirar alguma coisa — nossos recursos naturais, por exemplo, que ninguém no mundo tem igual, mas que por aqui desperdiçamos — e, no afã de nos proteger de nós mesmos, será um salvem-se quem puder, We are the World, pois até parece que ninguém está conosco, se eles também não estiverem. 

And The End.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Velhos fatos, novos votos



Por estes dias escutei de uma paciente: “O ano já começou assim, com o povo se matando um ao outro.” O desgosto era visível no seu rosto, e a desesperança, evidente. A julgar pelos comentários ditos por amigos e lidos em jornais e redes sociais, a impressão é de que, exceto pelos bons momentos e conquistas, a maioria está farta – e com indigestão – do ano passado, sofrendo de amargo e doloroso refluxo de situações e conjunturas diversas, muitas delas agregadas sob o nome de “crise” (que, apesar de ter começado antes, ficou mais evidente em 2016). A insatisfação com os políticos em geral, independentemente de partidos, roubou o palco das indignações populares. Vem à lembrança, neste momento, o verbete “Política interna” do Dicionário Filosófico de Voltaire (Ed. Martin Claret, 2002), que começa assim: “Consiste em possuir em vosso próprio país o maior poder, as maiores honras e os maiores prazeres que forem possíveis. Só se consegue com muito dinheiro.”
Tais sentimentos foram em parte amenizados pelo combate à corrupção, que tem trazido de fato algo diferente no modo como as coisas são feitas no Brasil. E não é só por aqui. A Suíça, destino predileto de dinheiro desviado, começou a desmontar seu sistema de sigilo bancário neste início de ano. Espera-se que, apesar dos interesses contrários de certos poderosos, pelo menos algumas medidas eficazes nesse combate permaneçam firmes.
Neste começo de 2017, também se percebe um sentimento crônico agudizado de apreensão pelo que está por vir, bastante devido às propostas polêmicas que deverão ser votadas. Propostas que mexem com o bolso, com valores morais, com posições. A expectativa é de acaloradas discussões e protestos. Algo preocupante é com que base as pessoas vão debater e entender os debates sobre esses pontos.
Supõe-se que, para defender uma posição sobre dado assunto, um indivíduo tenha que possuir informações bem fundamentadas sobre a matéria em questão. Ainda mais quando se trata de significativas questões em votação. Mas parece que isso não é prática corrente em vários lugares. Um exemplo marcante, na verdade já muito difundido, é o da saída do Reino Unido da União Europeia – o famoso Brexit –, em junho passado. Sem entrar no mérito da decisão da maioria dos britânicos votantes, chamou a atenção que, após o resultado da votação ter sido anunciado, a segunda pergunta mais pesquisada por britânicos no Google foi “o que é União Europeia”. Se esse dado divulgado está correto, é perturbador imaginar o que várias dessas pessoas estavam considerando quando tomaram suas decisões.
Um termo curioso que, como a crise, já existia mas se evidenciou no ano passado, foi eleito pelo Dicionário Oxford “a palavra do ano”: chama-se post-truth, traduzido como “pós-verdade”, cujo conceito é: “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Esse termo foi extensivamente aplicado ao Brexit e associado à vitória de Donald Trump e ao discurso de direita (como se fosse artimanha exclusiva de um grupo político). Não se trata aqui de discutir quais notícias são falsas, quais informações são boatos e por quais redes sociais, jornais ou revistas circulam. Esse fenômeno revela uma disposição e uma atitude mental perigosa para os debates saudáveis e as decisões conscientes. Parece que não importa o conhecimento, o saber, a objetividade. “Cada qual que se feche em seu mundinho e veja só o que quer ver.”

Conhecimento e sabedoria para discernir entre tantas informações. Este blog tem frequentemente abordado essa questão. Espero que faça parte de nossos votos, neste começo de ano (não deixemos só para depois do Carnaval!), buscar mais conhecimento e sabedoria. Vamos precisar!Por estes dias escutei de uma paciente: “O ano já começou assim, com o povo se matando um ao outro.” O desgosto era visível no seu rosto, e a desesperança, evidente. A julgar pelos comentários ditos por amigos e lidos em jornais e redes sociais, a impressão é de que, exceto pelos bons momentos e conquistas, a maioria está farta – e com indigestão – do ano passado, sofrendo de amargo e doloroso refluxo de situações e conjunturas diversas, muitas delas agregadas sob o nome de “crise” (que, apesar de ter começado antes, ficou mais evidente em 2016). A insatisfação com os políticos em geral, independentemente de partidos, roubou o palco das indignações populares. Vem à lembrança, neste momento, o verbete “Política interna” do Dicionário Filosófico de Voltaire (Ed. Martin Claret, 2002), que começa assim: “Consiste em possuir em vosso próprio país o maior poder, as maiores honras e os maiores prazeres que forem possíveis. Só se consegue com muito dinheiro.”
Tais sentimentos foram em parte amenizados pelo combate à corrupção, que tem trazido de fato algo diferente no modo como as coisas são feitas no Brasil. E não é só por aqui. A Suíça, destino predileto de dinheiro desviado, começou a desmontar seu sistema de sigilo bancário neste início de ano. Espera-se que, apesar dos interesses contrários de certos poderosos, pelo menos algumas medidas eficazes nesse combate permaneçam firmes.
Neste começo de 2017, também se percebe um sentimento crônico agudizado de apreensão pelo que está por vir, bastante devido às propostas polêmicas que deverão ser votadas. Propostas que mexem com o bolso, com valores morais, com posições. A expectativa é de acaloradas discussões e protestos. Algo preocupante é com que base as pessoas vão debater e entender os debates sobre esses pontos.
Supõe-se que, para defender uma posição sobre dado assunto, um indivíduo tenha que possuir informações bem fundamentadas sobre a matéria em questão. Ainda mais quando se trata de significativas questões em votação. Mas parece que isso não é prática corrente em vários lugares. Um exemplo marcante, na verdade já muito difundido, é o da saída do Reino Unido da União Europeia – o famoso Brexit –, em junho passado. Sem entrar no mérito da decisão da maioria dos britânicos votantes, chamou a atenção que, após o resultado da votação ter sido anunciado, a segunda pergunta mais pesquisada por britânicos no Google foi “o que é União Europeia”. Se esse dado divulgado está correto, é perturbador imaginar o que várias dessas pessoas estavam considerando quando tomaram suas decisões.
Um termo curioso que, como a crise, já existia mas se evidenciou no ano passado, foi eleito pelo Dicionário Oxford “a palavra do ano”: chama-se post-truth, traduzido como “pós-verdade”, cujo conceito é: “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Esse termo foi extensivamente aplicado ao Brexit e associado à vitória de Donald Trump e ao discurso de direita (como se fosse artimanha exclusiva de um grupo político). Não se trata aqui de discutir quais notícias são falsas, quais informações são boatos e por quais redes sociais, jornais ou revistas circulam. Esse fenômeno revela uma disposição e uma atitude mental perigosa para os debates saudáveis e as decisões conscientes. Parece que não importa o conhecimento, o saber, a objetividade. “Cada qual que se feche em seu mundinho e veja só o que quer ver.”
Conhecimento e sabedoria para discernir entre tantas informações. Este blog tem frequentemente abordado essa questão. Espero que faça parte de nossos votos, neste começo de ano (não deixemos só para depois do Carnaval!), buscar mais conhecimento e sabedoria. Vamos precisar!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Os monstros da direita

Hoje é dia 28 de dezembro, dia em que, no ano de 1990, foi editada a lei de criação do SUS. Entre outras medidas sociais de nossa Constituição, o SUS foi mais uma medida que aumentou as obrigações do Estado brasileiro. 

Sou médico desde o final de 2007. Logo após formado, tive a oportunidade de trabalhar como médico de família e pude conhecer de perto a realidade de uma população muito pobre e sofrida de meu país. Trabalhei em três municípios do Sertão nordestino, em meu estado, Ceará, ao longo de cerca de dois anos. O que uma experiência de convivência com a pobreza pode trazer para um indivíduo? Certamente muito! Vivendo numa região tão carente, pude presenciar, na prática, muitas questões assistenciais que ocorrem no Brasil. A inspiração deste texto partiu de um relato que li nas redes sociais atribuído a uma colega médica, Júlia Rocha, que afirmava que toda sua ideologia atual veio após uma convivência como médica de família. Dizia ela que, antes de trabalhar com pacientes pobres, era egoísta, homofóbica e contra o bolsa-família. Achava que o feminismo era o oposto do machismo, mas, segundo afirmou, encontrou a salvação e hoje defende todas essas bandeiras da esquerda, o que inclui o financiamento público de campanha. Ao final de seu texto, com o bordão #foramonstros, atribuiu às pessoas ruins a defesa por menor acesso ao sistema público de saúde e o maior tempo de contribuição previdenciária. Afinal, é preciso ser uma pessoa ruim para defender as bandeiras liberais? As pessoas que defendem menos impostos e mais liberdades individuais estão prejudicando os mais pobres?

A maneira mais eficaz de encontrar verdades atualmente é através das pesquisas. Uma boa pesquisa, por sua vez, utiliza um bom método. Uma experiência pessoal, como a dessa minha colega de esquerda, no entanto, pode servir sim de inspiração para que cheguemos às verdades. Minhas dúvidas são: as ideias bem intencionadas da esquerda são mesmo benéficas? A lei do salário mínimo aumenta os salários? O sistema público de saúde provê uma melhor saúde? Defender mais liberdade econômica é maléfico aos trabalhadores? 

A realidade da pobreza

Muitos não conhecem a realidade das cidades muito pobres, mas no Sertão nordestino, um restaurante ou uma lanchonete é às vezes uma raridade. Numa das cidades onde trabalhei, encontrei uma senhora aposentada, D. Tereza, que usava a parte da frente de sua casa para comercializar alguns alimentos, o que ajudava nas contas de casa. Tive a oportunidade de comer pasteis deliciosos ao módico preço de R$ 0,50, que, mesmo em 2009, era muito pouco. Ela trabalhava com sua filha. Num determinado dia, após meu expediente, em busca do pastel, tenho a infeliz surpresa de que a D. Tereza havia fechado seu estabelecimento, pois sua filha fora aprovada num concurso em outra cidade. Questionei à D. Tereza por que ela não chamava alguma outra pessoa para ajudá-la? A resposta dela não sai da minha memória: o que eu ganho com as vendas não me permite pagar um salário registrado. Dizendo de outra forma: o comércio dela gerava renda a ela e sua filha, mas não era suficiente para gerar a ela uma renda pagando um salário a uma pessoa. Nas cidades ricas do país, como São Paulo, não há muitos empregos que oferecem apenas o salário-mínimo, a maioria dos empregos pagam mais. Numa cidade onde um pastel custa R$ 0,50, um salário-mínimo nem pode ser pago. Minha questão: o que é melhor para a cidade pobre: a D. Tereza contratar alguém por metade de um salário mínimo (ou qualquer outro valor) ou a D. Tereza fechar as portas (como fechou)? E para o potencial funcionário da D. Tereza? É melhor receber meio salário mínimo ou é melhor não ter o emprego e receber, em troca, 10% de um salário mínimo (o bolsa-família)? A existência do salário-mínimo, neste caso pontual, foi ruim para D. Tereza, pois ela teve que fechar seu comércio, foi ruim para o eventual empregado, que perdeu a oportunidade, e foi ruim para a cidade, que perdeu uma fonte de renda e impostos. A intenção de obrigar um pagamento mínimo é ótima, mas seus reais efeitos são o oposto da intenção: gera desemprego e estagnação econômica. Pergunto: é melhor defender uma ideia por sua boa intenção ou por seu efeito real?

Tive a feliz oportunidade de atender inúmeros agricultores. Surpreenderam-me, pois eram os mais honestos, os mais trabalhadores, porém, os mais pobres. Muitos me diziam se orgulhar de pagar seu sindicato. Achei isso muito curioso, pois os agricultores não eram, em minha cabeça urbana, uma categoria muito sindicalizada, mas sim autônomos em suas pequenas terras. Perguntei a vários e, depois de um tempo, entendi: eles pagavam o sindicato, mas não recolhiam o INSS. Pagar o sindicato é uma maneira de comprovar a profissão de agricultor, o que lhe concede o benefício de aposentar-se como trabalhador rural, mesmo sem ter pago contribuições previdenciárias. Um dia presenciei uma reunião do sindicato, onde pude escutar todas as frases clichês marxistas, e ouvi os sindicalistas convencendo os agricultores da importância de pagar o sindicato, para que pudessem receber seus direitos. Os agricultores estavam pagando sindicato para se aposentarem, mas o seu pagador, a Previdência, nada recebia. Isso, pela lei atual, não é ilegal.

Mas nem tudo são espinhos na pobreza de meu estado. Eu tive momentos que me trouxeram um enorme sentimento de otimismo. Muitos pacientes que eu atendia não tomavam seus remédios corretamente por não entenderem como fazê-lo. Eu tinha que me desdobrar para tornar minha receita mais eficaz: diminuía a quantidade de remédios, desenhava sol e lua para que os que não liam entendessem ser um comprimido pela manhã e um a noite, enfim, era um desafio diário. Comecei a perceber então que os pacientes acompanhados de seus filhos ou netos tinham uma enorme vantagem: todas as crianças sabiam ler! Passei até a recomendar que viessem acompanhados deles, pois ajudava muito ao paciente que outra pessoa entendesse a receita para que lhe explicasse em casa. Foi um verdadeiro momento de epifania: percebi que as novas gerações estavam com uma vantagem enorme, e que o futuro poderia ser sim promissor!

Algumas tentativas para mitigar a pobreza podem, na verdade, aumentá-la.

Algumas tentativas para mitigar a pobreza e o sofrimento podem, na verdade, aumentá-la! Quando um defensor do agricultor pobre afirma que ele tem o direito de se aposentar aos 55 anos mesmo sem ter contribuído à Previdência, pois há recursos do PIS, COFINS, CSLL e imposto de importação, como manda a Constituição, esse defensor precisa saber que quem paga esses impostos são pessoas como a D. Tereza, dos pasteis. Ajudar o agricultor é muito importante, mas isso não pode custar o negócio da D Tereza, pois, assim, o resultado será o oposto à intenção. Além disso, quando um governo gasta 30% do orçamento com previdência, mas apenas 6% com educação, ele está sendo filantropo, porém, não está resolvendo a pobreza. Quando alguém defende o aumento (ou a existência) do salário mínimo, involuntariamente, esse alguém está defendendo um maior desemprego. Não é minha opinião, são as consequências inevitáveis do sistema voluntário de trocas comerciais da humanidade. Numa cidade onde o salário mínimo for maior do que a capacidade de o empregador pagar, haverá uma menor oferta de empregos.

O discurso de que é por falta de coração que pessoas defendem políticas econômicas mais liberais e menos estatizantes é falso!

Conhecer a pobreza, ver nos olhos do outro suas necessidades básicas, deve, sim, sensibilizar as pessoas de bem! O que fazer para diminuir esse sofrimento, no entanto, deve ser bastante estudado para que seja eficaz. Um liberal, quando defende o fim do salário mínimo, está lembrando da D. Tereza, que poderia tornar viável o seu pequeno comércio de pasteis! A defesa de uma previdência pública mais enxuta tem o objetivo de poupar os gastos públicos, pois, para pagar um direito de alguém que não contribuiu para isso, será tirado dinheiro de um outro (a D Tereza pagar COFINS para a Previdência poder pagar a aposentadoria do agricultor), além de coibir o jeitinho brasileiro (o agricultor pagar para um sindicato ao invés de pagar para a Previdência). A esquerda não tem o monopólio da virtude. O discurso de que é por falta de coração que pessoas defendem políticas econômicas mais liberais e menos estatizantes é um discurso falso ou ignorante. É por conhecer a pobreza, é por conhecer o sofrimento dos outros que os liberais defendem as políticas liberais.

O verdadeiro gerador de riqueza e progresso é o indivíduo, seja o agricultor, o comerciante ou o industrial. Quanto mais valor o indivíduo consegue produzir, maior o enriquecimento da população. A medida de maior impacto no aumento da riqueza é conseguir produzir mais com o mesmo custo (produtividade) e, para isso, são necessárias ferramentas e invenções provenientes da educação. Gasto público em qualquer área pode trazer impactos bons ou ruins por muito ou pouco tempo, mas um gasto que gera impactos positivos que se multiplicam sozinhos é o gasto com a educação. O Estado pode, sim, ser uma instituição a quem recorrer numa situação de necessidade, mas, por ser sempre menos eficiente, deve ser o último recurso, não o primeiro. A prioridade do Estado deve ser tornar possível aos seus cidadãos realizarem seus afazeres. Faz-se isso ao estimular e promover a educação, por um lado, e ao não atrapalhar com impostos e regulamentações excessivas. Este é o verdadeiro papel do Estado. O Estado ser uma gigantesca e ineficiente instituição filantrópica irá dificultar isso. E não sou monstro por pensar assim.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Resenha: "Todo mundo tem direito a um segredo", de Lia Sanders, por Raymundo Netto


Todo mundo tem direito a um segredo?

“A vida é maior que qualquer literatura.”

Parece que sim, pelo menos é o que afirma o título do romance de estreia de Lia Sanders, escritora, médica e artista plástica, que, curiosamente, é dedicado à dona Lirinha, sua avó, “a maior contadora de histórias”.
Todo mundo tem direito a um segredo, ganhador de menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura e publicado pela editora Substânsia em 2015, é um diário cinematográfico cuja a tela é a mente fluente da protagonista, uma jovem órfã de 25 anos, estrábica, chamada simplesmente de “Neta”, que nunca frequentou escola, mas que escrevia sob pseudônimo no maior jornal da cidade, o Diário do Povo, e que não tinha sequer certidão de nascimento nem carteira de identidade, nem nunca amigos, namorado ou namorada. Residia com a avó Rebeca, sua antagonista, de 86 anos, mulher ríspida, razão de seus “recalques”, e que com ela mantém conflitos regulares durante toda a história permeada de segredos indizíveis, e com a inexpressiva Maria, uma sexagenária, empregada da casa e cúmplice, com seu silêncio, das artimanhas de Rebeca.
O “metalivro” que temos oportunidade de ler seria o fruto de uma encomenda. Rebeca, avó de Neta e dona do jornal em que escreve – mas que não ganha – pagaria, e pagaria bem, para que ela contasse a história de sua vida, “um tristonho livro de memórias alheias”. Entretanto, Neta não consegue sair do picadeiro de papel, trazendo ao texto o seu inconformismo pessoal, suas dúvidas, traumas, confusões, angústias, embates – sabotagens e desconfianças mútuas – com a avó e a ansiedade de desvendar a sua verdadeira identidade e buscar um sentido para sua vida. Afinal, quem era ela realmente? Qual a sua origem? Quem eram aqueles pais? Por quê? Por quês?
Tudo que sabia de si, vinha da boca da avó, pessoa que, segundo ela, não merecia crédito e com a qual disputava autoridade – isso me lembra o texto “Romances Familiares”, de Freud.
Sua mãe morrera no momento do parto. Seu pai se suicidara. Seu avô Joaquim também morrera – outra vítima da avó, dizia ela. Levara “metade da vida para descobrir algo errado com seus pais e a outra metade para acatar as suas ausências”.
Onde a personagem falha na escrita do sua proposta, a autora, ao contrário, é bem sucedida, e adverte em sua apresentação que o livro “foi escrito como quem descobre” e é exatamente assim que, provavelmente, você o lerá.
 No romance, de características psicológicas, o leitor vai enredar-se na trama bem construída, acentuada por um fluxo de consciência peculiarmente feminino – e quase adolescente – em busca de sua autoafirmação, com suspense e tensões que aguçam a curiosidade, provocam reflexão e inquietudes, o que já seria por si um mérito louvável para qualquer escritor. Ademais, não há apenas um, mas um espectro de segredos que nos surgem e nos são revelados aos poucos e, involuntariamente, caímos no trilhar desse mistério que é a vida. Abrir a porta da casa de uma família para expô-la ao público é sempre um risco... de sucesso. No caso do livro de Lia, funcionou.
Não bastasse, Lia convocou entes espirituais e denominou-os de Eurípedes (referência ao poeta grego, que ressaltava em sua obra as inquietações da alma humana, em especial as das mulheres) e Julius (o Higino, referência ao escritor e astrônomo que, entre outros, resumiu enredos de algumas tragédias de Eurípedes), que entre diálogos relativamente humorados assistem aos confrontos de avó e neta, torcem, e chegam a decidir o destino das duas mulheres.
Gostaria de deixar nota também para outro aspecto da obra, que é a possibilidade de repensarmos ou refletirmos sobre o modelo familiar tradicional, entendendo a família como esse conjunto de arranjos sociais e afetivos, beirando en passant as novas configurações familiares, tema de interesse diante da dinâmica social que faz com que reconheçamos as famílias monoparentais, as relações homoafetivas, paternidades e maternidades socioafetivas, entre outras composições não mais tão raras nos dias atuais, rupturas que se tornam um grande desafio para manutenção da tolerância, a promoção da diversidade e o exercício daquilo que apenas apelidamos de amor.
Todo mundo tem, sim, direito a um segredo. Você também deve ter um... na sua estante.

Sobre Lia Sanders
Nasceu em Fortaleza, em 14 de novembro de 1983. Formada em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com doutorado em Neurociência Cognitiva / Psicologia pela Humboldt Universität zu Berlin, é também escritora e artista plástica autodidata. Atualmente, divide-se entre Psiquiatria, Literatura e Artes Plásticas. Reside em Fortaleza.   

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Matutando (Saudades d)o Brasil: Memórias Afetivo-Musicais 1

“Um dia o Brasil vai ser para você uma grande saudade.” Eu costumava dizer a minha amiga Eliana Vasconcelos, quando ela falava em migrar para os Estados Unidos depois da nossa formatura em medicina. Tendo tido eu mesmo a dor de sair do Brasil duas vezes, a primeira em 1997 e a segunda em 2006, hoje essa saudade é minha também.

E foi essa saudade que transbordou quando convidado a contribuir num blog espertamente chamado Matutando o Brasil. E as primeiras saudades são musicais.


Minha geração nasceu na ditadura e se descobriu adolescente quando o Brasil se descobria democracia. Fizemos a ponte da Bossa Nova para a música de protesto dos festivais e daí para o rock nacional anos 80. Na nossa casa tínhamos aspirações de classe ilustrada com as finanças de proletariado - quem cresceu nessa época conhece bem essa palavra, quem não cresceu pode ir ao Aurélio ou ao Google.  Então tínhamos que ser seletivos na discografia. Os discos - os chamados LPs - que não sabíamos ser long play - formavam então a nossa trilha sonora pessoal, para momentos de conquista ou mais frequentemente para momentos de dor-de-cotovelo. Não sei se essa pode ser a trilha sonora de uma geração mas certamente foi a trilha sonora de um grupo de jovens criados ali pelas imediações da Santos Dummont com Barão de Aracati, circa 1980. 

Foi justamente na entrada desse ano que a Simone gravou um show ao vivo no Canecão e gerou um belíssimo registro, incluindo pérolas como Jura Secreta – Só uma palavra me devora, aquela que meu coração não diz; Começar de Novo – sem contar contigo, vai valer a pena, ter amanhecido; Sob Medida meu amigo, se ajeite comigo e de graças a Deus - numa mistura magistral com Orgulho, Vingança, e Matriz ou Filial, fechando o Lado A com Não Sonho Mais – foi um sonho medonho desses que as vezes a gente sonha. O lado B começava com Maria, Maria - que anos depois iria eleger uma prefeita de Fortaleza; seguindo para Cigarra e para a até então censurada Para Não Dizer que Não Falei das Flores - conhecida como Caminhando e Cantando e a primeira música que se aprendia no violão pois só tem dois acordes Mi menor e Ré maior; daí partia para Aquarela do Brasil e depois Eu To Voltando. Outro LP que marcou nosso juízo foi o Mel da Maria Bethânia, com a forte sensualidade dos Lábios de Mel, Cheiro de Amor, Amando Sobre os Jornais, e ainda Grito de Alerta do Gonzaguinha.  Ainda dessa geração tínhamos coisa do Vinícius - cantando com Toquinho e Maria Creusa - sobre a Tarde de Itapoã e aquele velho calção de banho. Tínhamos dias para vadiar nessa época. O disco incluia ainda o grande Eu Sei que vou te amar – que fez uma geracao aprender a declamar “de tudo ao meu amor serei atento” e “que seja eterno enquanto dure”. Havia claro um disco do Chico Buarque - ele cantando aquele inesquecível Sinal Fechado do Paulinho da Viola Olá, como vai? Eu vou indo e você, tudo bem? Fechando com o grande Cartola ensinando que a Vida é um Moinho e que As Rosas Não Falam – simplesmente exalam o perfume que roubam de ti.

Num lance mais eclético tínhamos ainda um disco do Sivuca chamado Cabelo de Milho, que abre com a sabedoria “Tanta água no coco e o riacho tão seco e só” e terminava na Feira de Mangaio. Esse disco tinha inclusive a participação do Fagner - que sempre parecia um primo distante sendo cearense - cantado Nos Tempos dos Quintais.


Assim se fecha essa primeira impressão imprecisa da memória musical dessa enorme saudade.  Esses poucos discos desses grandes artistas, alguns no seu auge de talento e em sintonia com o momento social e politico do Brasil, estavam amadurecendo aqueles ouvidos infantis para a explosão que seria o rock brasileiro. Que fica para o próximo blogpost.