quarta-feira, 22 de março de 2017

O que está escrito? Como lês?


“O que está escrito na lei? Como lês? ” Nessa passagem bíblica, registrada no evangelho de Lucas (10:26), Jesus responde, com um duplo questionamento, a um doutor da lei que o abordara perguntando o que deveria fazer para ter a vida eterna. Primeiramente, quero esclarecer que esse texto do Matutando o Brasil não se trata de um sermão. Antes, procura, assim como os outros textos do blog, trazer uma reflexão.

Há algum tempo já se diz que estamos na “era da informação”, que nos encontramos até numa guerra de informação, o bem mais precioso no mercado. A rapidez e a facilidade com que circulam notícias, boatos, dados financeiros, fotos etc. chega a ser estonteante. Um dos perigos que vêm sendo apontados é a distorção de fatos, gerando factoides que são propagados – e frequentemente aceitos – como verdade, especialmente quando há forte apelo emocional e reforço dos preconceitos. Muitas vezes fica difícil separar o joio do trigo, já que a informação anda com maior potencial de contaminação do que muita carne por aí.

Nesse contexto, é interessante a dupla pergunta de Jesus ao doutor: “O que está escrito? ”, ou seja, quais são os dados apresentados; e “Como lês? ”, quer dizer, como ele, um especialista, analisa e interpreta tais dados. Temos aí no mínimo dois problemas. O primeiro refere-se à informação em si – se está adequada, incompleta ou adulterada. Até no meio científico, no qual deveria reinar o maior respeito pela busca da verdade e pela veracidade dos dados, encontram-se maçãs podres, para defender interesses ideológicos e financeiros. A fonte dos dados é de confiança? Para quem?

Uma outra questão é a da análise desses dados. “Não existem fatos, apenas interpretações”, diz Nietzsche. Ora, se especialistas muitas vezes divergem sobre determinado assunto, como fica o pobre do leigo? Imagine o desespero de pacientes que passam por diversos médicos, com opiniões conflitantes; a batalha de argumentos nos tribunais, eventualmente com direito a deliberação por júri popular; o conflito de ideias e propostas na economia, com impacto direto na vida do cidadão. Um tema quente do momento é a Reforma da Previdência. Os debates geralmente começam com a tentativa de definição da necessidade – ou não – de uma reforma de fato, com base na presença ou ausência de déficit nas contas. Nesse ponto não há acordo entre o governo, que afirma categoricamente haver um déficit monstruoso e que algo precisa ser feito “para ontem”, e a ANFIP (Associação Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil) e Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), que defendem a existência de um superávit na previdência, argumentando que o governo não faz o cálculo como deveria (e não usa o dinheiro como deveria). Quem tem razão?

Há quem recuse terminantemente qualquer menção a proposta nesse campo, e há quem acredite que deva ocorrer sim alguma mudança, mesmo que não nos moldes apresentados pelo governo. A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) se pronunciou contra a reforma, pelo menos da maneira como ela está sendo sugerida. Um dos pontos levantados é que a proposta não contempla as desigualdades reais, buscando aplicar a todos as mesmas regras. De qualquer modo, as discussões estão acontecendo. Mas os cidadãos estão participando dela? No regime democrático, o intuito é que as pessoas estejam por dentro do que se passa no país, assim como sabem (ou deveriam saber) o que ocorre no bairro onde moram, para minimamente poderem tomar decisões ou ao menos dizer que não conseguem decidir. Se não for assim, os representantes do povo estarão representando interesses diversos da “voz do povo”. Numa época em que a população está farta da politicagem em meio aos escândalos de corrupção, é até compreensível a postura daqueles que não querem discutir absolutamente nada que venha do governo, pois não enxergam moral nenhuma nos políticos e desconfiam de suas intenções e seus cronogramas. Porém, se não houver debates, o que haverá?


Um grande problema é que, quando há discussões entre populares, mesmo entre amigos e colegas, temos tido a infelicidade de ver muita briga e separação; quanto mais quando se trata de lidar com quem é “diferente”. Continuando assim, de pouco adianta checar e analisar as informações, pois as opiniões já estão formadas, os ânimos acesos e os preconceitos, fortalecidos. A conversa de Jesus com o doutor da lei culmina na parábola do bom samaritano, bastante conhecida. O doutor pergunta ao mestre: “Quem é meu próximo? ”, em sequência à proclamação do mandamento “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”. Então Jesus conta a parábola. Aqui fica, além das duas perguntas do título, também esta: quem é meu próximo?

quarta-feira, 15 de março de 2017

O português que todo mundo fala e o gramatiquês

Parece que existem duas línguas no Brasil: aquela que as pessoas falam ou escrevem nas mídias sociais e a que é ensinada nas salas de aula pelos professores de português. O fenômeno não ocorre somente com o nosso idioma.

Existe um português mais formal, cultivado pelos letrados, ensinado nos compêndios, exigido nas provas de vestibulares e concursos. Quem o pratica, procura obedecer aos preceitos da gramática dita tradicional e olha com desdém e ironia os desvios daqueles que lhe ignoram as regras. Tal linguagem predomina, por exemplo, na escrita dos livros, de textos acadêmicos, na correspondência oficial e comercial, na fala mais cerimoniosa de certos ambientes. Alguns de seus cultores mais radicais chegam a considerá-la a única forma aceitável de comunicação, assumindo atitudes de policiamento e de censura diante da linguagem espontânea e coloquial do povão. Ao usuário caberia falar como se escreve, seguindo, sem atenuantes, os ditames de uma gramática fixa e imutável.

No outro extremo, existem os que afirmam que o idioma é produto do povo, não um sistema de regras e princípios ditados pelos filólogos e gramáticos. O povo é o único soberano mestre da linguagem: suas sentenças são sem apelação e o uso tudo justifica.

Sob essa dicotomia, subsiste um sistema ideológico bem visível e o primado de uma forma de linguagem sobre outra revela, talvez, um determinado posicionamento filosófico e político. Uma pessoa de tendência conservadora, de ideias tradicionais, que acentuadamente valoriza o argumento de autoridade tende a aceitar unicamente a língua culta com um único padrão pelo qual se devem pautar todas as manifestações da linguagem em qualquer situação de comunicação. Ao contrário, aquele de princípios mais liberais, sensível às mudanças de comportamento em face das transformações que se operam na sociedade, procura, por sua vez, minimizar a importância da gramática e dos gramáticos como norteadores do bem falar e do escrever.

Matutando sobre isso, há de se reconhecer a existência e a necessidade do uso da língua, dita culta e, também, da língua mais espontânea e popular. Querer regê-las dentro do mesmo código seria negar-lhes as particularidades e suas funções específicas. A língua falada, por exemplo, jamais poderá ser idêntica à língua escrita e esta, por sua vez, não obstante o esforço do escritor, sempre será diferente, pois dispõe múltiplos e variados recursos intransponíveis para a grafia.

A gramática, ensinada na escola, com seus princípios e normas, ocupa-se preferencialmente com a língua culta de menos uso que a língua falada pelo povo. Escrever, no entanto, de acordo com seus preceitos é justificável e exigido em determinadas situações de comunicação.

A noção de erro, em consequência, não é a mesma nas duas formas de comunicação. Aquilo que não é permitido quando se redige em situações mais formais pode ser justificado quando se usa a língua coloquial e espontânea na publicidade e nos blogs, por exemplo.

Querer a uniformização da variante culta e da popular seria pura utopia. Pretender, por outro lado, abolir o ensino da gramática na escola seria uma irresponsabilidade sem tamanho. A ela compete a importante missão de registrar os fatos da língua padrão, que se superpõe aos falares regionais, bem como estabelecer os preceitos não só do como se escreve (língua escrita), mas também de como se fala (língua falada). A demora dos registros dos fatos linguísticos, já amplamente empregados e assimilados no idioma, acentua não raro o descompasso entre o português da sala de aula e o português do povo.

A língua culta e a língua popular são ramos do mesmo tronco que mutuamente se completam e se enriquecem. Há espaço para as duas variantes. A escolha de cada uma delas vai depender da situação de comunicação em que se encontra o usuário da língua.

Tais diferenças não empobrecem o idioma, mas, pelo contrário, revelam a sua multiplicidade e riqueza.

sábado, 11 de março de 2017

Neoliberalismo: a negação da negação

A base ideológica da filosofia neoliberal consiste numa aforismo interessantíssimo, já destacado por pensadores do calibre de Slavoj Žižek e Zygmunt Bauman: é uma ideologia que se apresenta como não ideológica. Essa forma ideológica invade todos os espaços da vida comum, baseada (i) num discurso vazio de conteúdo, com frases de efeito e (ii) lideranças sem alternativas para o mundo como ele se apresenta. 

No que respeita ao primeiro item sob análise, é comum encontrarmos textos espalhados por pseudointelectuais que nos indicam, com uma profundidade teórica assustadora, que "a liberdade liberta", a nos convencer que somos livres, a despeito de todos os fatores que nos indicam que essa liberdade, num mundo de consumo, não é para todos. Em segundo lugar, as propostas de eliminação do Estado, das instituições burocráticas e da superestrutura que vigora no mundo ocidental (variando de acordo com a cultura de cada sociedade, como é óbvia), é necessária para pôr fim à burocracia que atravanca o progresso, aos custos que nos impedem de consumir mais, e à regulamentação que impede que o mercado avance em todos os aspectos da vida humana - mesmo que isso nos indique um paulatino processo de reificação (coisificação da condição humana).

Esse domínio ideológico encontra campo fértil em território brasileiro, basicamente por duas razões: falta de estrutura educacional, que tenha preparado a população para os debates que envolvem a política e a economia - como componentes de uma vida cidadã-, e a força de grandes grupos econômicos que têm interesse em desregulamentar diversas conquistas sociais já sedimentadas no ordenamento jurídico brasileiro (por via dos tratados internacionais que ensejaram o surgimento, por exemplo, dos direitos fundamentais individuais e coletivos na Constituição Federal de 1988).

Diante disso, a liderança politizada para um pensamento progressista fica restrita à classe média que, obviamente, luta para garantir a continuidade de seus direitos (ou privilégios, visto que eles não se estendem ou não são gozados com a mesma intensidade pela classe subalterna e miserável do País), que não costuma dialogar com os desprovidos. De fato, é preciso reconhecer que o clamor por justiça social e por bem-estar fica restrito às rodas de conversas universitárias e aos pequenos grupos de pressão organizados que, ocupando partidos políticos, sindicatos ou outras formas de grêmios sociais, como as Organizações Não-Governamentais, fazem seu papel de contra-posição ao atual modelo hegemônico que domina os meios de comunicação de massa.

Portanto, resta perceber que "a negação da negação" é nada mais do que uma afirmação: o pensamento neoliberal, que desregula a economia, os direitos sociais, a proteção do meio ambiente e tantas outras áreas do interesse coletivo, é um tipo discursivo individualista e ensimesmado, fechado para a discussão por uma ausência ou lacuna: não há uma contraponto que sirva de alternativa, de inovação ao "fim da História" decretado por Fukuyama. A grande ironia é que, como "negação da negação", ele reafirma tão-somente o velho conflito de interesses e a luta de classes, num modelo defasado que crê na expansão ilimitada dos recursos e na exploração da força de trabalho - enquanto houver meio ambiente social e natural. Enquanto houver...

quarta-feira, 8 de março de 2017

Do que precisamos para começar a tratar este país como nosso?

Minha curiosidade por seres humanos parte das células, passa pelos órgãos, percorre traços e formas, discurso, linguagem; vai até o cérebro. Mentes humanas não cabem em neurônios. Gostemos ou não, somos sistemas abertos. Inevitável que meu fascínio por funções e disfunções se estendesse às famílias, ao meio. Não que eu tenha compreendido ou abandonado qualquer uma dessas instâncias, mas, ultimamente, é o nosso país que muito me intriga. Sondo as origens e entrevejo um futuro em que boa parte dos brasileiros parece desacreditar. Pudera! Nosso grau de identidade coletiva é deveras instável. Basta uma boa surra no futebol para rasgarmos a camisa. É “salve-se quem puder” dentro e fora de estádios. Para dirimir ainda mais o desejo de identificação, inúmeros têm sido os ensejos de nos envergonharmos de nossa nação. Adentrando, ainda que à revelia, a irremediável era da transparência, pressentimos: a temporada de escândalos está em seus primórdios. Podemos fugir para as colinas, para lá do muro de Trump, para a “zoropa”, para o Brasil “melhorado” cheio de cangurus ou para qualquer recanto que julguemos merecedores de nós, seres destinados a um país inteiramente distinto do que de fato dispomos. São muitos os refúgios e uma é pergunta que me parece crucial: do que precisamos para começar a tratar este país como nosso? Segundo os economistas Alberto Alesina e Edward Glaeser, em países com maior diversidade étnica, há menos disposição para redistribuir renda e contribuir com o estado de bem-estar social. Já países de pessoas etnicamente próximas funcionam como uma grande família, em que a colaboração se dá com naturalidade. O artigo me fez pensar que a falta de identificação coletiva no Brasil se deve à nossa heterogeneidade. Já sabemos que o Neguinho da Beija-flor é geneticamente mais europeu do que africano, mas as aparências teimam em nos inebriar. Em uma única semana, dois casos de violência ganharam as mídias em Fortaleza. Um corredor foi brutalmente agredido por assaltantes na avenida Beira-mar e sofreu traumatismo craniano. Em um bairro bem afastado da zona nobre, uma travesti foi espancada até a morte por pessoas que simplesmente não a aceitavam como tal. Qual dos casos ganhou repercussão no grupo de whatsapp da minha turma de faculdade? Longe de comparar tragédias ou minimizar justificadas indignações, meu questionamento apenas destaca o nosso maior pesar pelos mais semelhantes. E o Brasil, convenhamos, não é um país de semelhantes. Somos diferentes, diversos, distintos. Se adversidade é voltar-se contra, diversidade é voltar-se em diferentes direções. Num mundo cada vez mais adverso, que bela surpresa se a reverência indígena à natureza, a herança cultural africana e a tolerância mourisca portuguesa ainda nos salvarem! Podemos, quem sabe, passar a enxergar na pluralidade o caminho para a construção de um país singular. O desafio continua o de amar o próximo; o semelhante a gente tira de letra.


*Além do artigo de Alesina e Glaeser, muito recomendo Tópicos Utópicos, de Eduardo Gianetti.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Laico, pero no mucho


Somos uma nação de formação histórica católica que, através da bestialidade contra as crenças de povos não europeus, aniquilou culturas e religiões indígenas e africanas, com o objetivo de impor a esses povos os hábitos e costumes europeus. No tocante às religiões de matriz africana, encontramos ainda hoje uma crescente intolerância não mais ordenada pelo Estado, mas por adeptos de religiões cristãs.
Durante a segunda metade do século XIX, o catolicismo no Brasil passou por um processo de expansão e consolidação, associando-se de forma rígida à cultura e identidade brasileira. A relação que o brasileiro tem com a religião é um reflexo das nossas contradições como sociedade, onde há um gigantesco abismo entre o que é proferido e o que é executado, pois a religiosidade brasileira é plural, diversa, ampla, sincrética, heterogênea e plástica.
Nas últimas décadas, verificamos no Brasil um intenso crescimento do número de evangélicos à custa de um lento, mas constante, declínio católico. Segundo o instituto Datafolha, o número chega a 29%, sete pontos percentuais a mais do que o Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou. A tendência de expansão desse segmento religioso reflete um crescimento da influência dos evangélicos nas transformações culturais e políticas do Brasil recente, como observamos nas ações de parlamentares evangélicos em relação aos direitos das mulheres e de LGBTs. Atualmente, no Congresso, há a maior bancada evangélica da história, com 75 deputados federais e três senadores evangélicos. Vimos recentemente, durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma, uma coesão da bancada evangélica que, através de discursos ignóbeis e pífios em muitos momentos dedicados a “Deus”, apoiaram maciçamente o impedimento. Esse mesmo grupo político-religioso se alinha à dita direita do espectro político para defender pautas conservadoras e preconceituosas (homofobia, machismo e racismo) no campo dos costumes, políticas sociais e econômicas.
Um país secular ou laico é um conceito onde o poder do Estado é oficialmente neutro no campo religioso, não apoiando ou discriminando nenhuma religião ou a ausência dela, opção que representa atualmente, segundo pesquisa Datafolha realizada em dezembro de 2016, 1% da população brasileira.
Um Estado laico não permite a interferência de correntes religiosas em matérias sociopolíticas e culturais, o que é o oposto ao que se observa atualmente no Brasil. Nos últimos anos, a bancada evangélica vem apresentando projetos extremamente retrógrados, como o projeto de lei do aborto, que cria empecilhos para o direito constitucional das mulheres vítimas de violência sexual realizarem aborto na rede pública de saúde; ou o projeto de lei da redução da maioridade penal, aprovado na Câmara e que aguarda análise do Senado, que teve a tolice de usar passagens bíblicas para justificar a redução. Outra aberração apresentada é o Estatuto da Família que determina que família é constituída apenas pela união entre homem e mulher.
Outro fato que causa estranheza no seu antagonismo ao Estado laico é o uso de símbolos religiosos, exclusivamente cristãos, em repartições públicas. Esses setores são um bem público que pertencem a todos os cidadãos, o que caracteriza no mínimo um desrespeito ao princípio da isonomia. Por que usar apenas uma cruz cristã? Poderíamos adicionar um orixá do Candomblé, ou a lua crescente com estrela do Islamismo, ou, talvez, um pentagrama Wicca, afinal os símbolos de todas religiões têm para os seus seguidores o mesmo valor e a mesma importância que tem a cruz para os Cristãos.
Fomos cunhados como sociedade no molde pequeno-burguês cristão. A Igreja católica foi a matrix que construiu os valores, a moral, e a ética do corpo social. Felizmente, nas últimas décadas, tivemos importantes avanços na sociedade brasileira que começaram a partir do movimento feminista que surgiu no Brasil nos anos 70, com decisivas contribuições no processo de democratização do Estado, além de facultar à mulher autonomia sobre seu corpo pelo exercício prazeroso da sexualidade, podendo decidir sobre quando ter ou não filhos. Em contrapartida, nos últimos anos, estamos experimentando uma nostálgica tendência “retrô” por períodos medievais, que nos suscita uma grande apreensão em relação ao que está por vir. Há atualmente no Brasil um forte grupo político-religioso, com objetivos e propostas bem definidas, que a cada dia ganha mais adeptos. O fenômeno é fruto de uma gigantesca crise econômica e política que o País atravessa e que a cada eleição adquire mais poder político.
Na discussão pública não pode haver pensamento religioso, assim como opiniões e visões pessoais não podem servir de parâmetro para propósitos que envolvam toda uma sociedade. Tenho uma visão muito particular sobre religião, o que envolve o fato de eu ser ateu desde os dez anos. Aprendi desde cedo que religião não define caráter, valores ou dignidade e que não existe religião boa, mas sim pessoas boas que às vezes têm religião. 

Particularmente, não me incomodo com políticos com crenças religiosas, porém sinto repugnância em saber que minha vida e minhas escolhas podem ser influenciadas direta ou indiretamente por leis baseadas em “princípios” religiosos. Permitir algo dessa natureza seria um retrocesso cultural, político e intelectual sem precedentes na história do País.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Mais empatia, por favor

Muito me agrada compreender e colocar em prática a empatia. Longe de ser aquele papo clichê que anseia, sem esforço algum, se tornar alguém melhor ou apenas introduzir a expressão de forma corriqueira em meu vocabulário. Vai além. 

Costumo dizer que a empatia nos confunde muitas vezes em acharmos que praticá-la é apenas “simpatizar” por lutas diferentes das nossas ou “ter pena” de certo alguém e então o ajudar. Acredite, o caminho é outro.... Se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo suas perspectivas/sentimentos e usando essa compreensão para guiar as próprias ações tem o poder de promover profundas mudanças sociais quanto de transformar nossas vidas. É o nascimento de uma revolução nas relações humanas. 

Sou uma admiradora do Direito Constitucional, sendo assim, reflito bastante sobre nossa Constituição e, automaticamente, entro no viés de como é positiva a adesão dos direitos humanos na última Carta que nos segue até agora. Mas, como bem sabemos, a nossa Legislação está muito além da realidade, faltando compatibilidade necessária entre seu aspecto formal e o que existe de fato.

Então, sem grandes esforços, penso na poderosa ligação em que o uso da empatia se faz necessária para enfrentarmos as crises e ultrapassar todos esses problemas de política, pobreza, intolerância religiosa e até mesmo essas divisões sociais que o abuso dos direitos humanos nos traz.

Também penso em como a ideia (e de certa forma, quase que uma teoria aplicada por alguns autores) de que as emoções ficam de fora de uma decisão judicial, por exemplo. Como é definido um bom juiz, então? Um magistrado com a finalidade de obter a melhor solução, a qual deve satisfazer não apenas as partes envolvidas, mas também à própria sociedade. Mas será que apenas com o conhecimento técnico, vivência, capacidade de observação e sua experiência ele alcançaria? Eu não tenho dúvidas de que uma profunda postura empática, face aos problemas que lhes são apresentados, tem total importância e rumo para as suas decisões.

E, se a finalidade de uma ação judicial é de atender a uma necessidade e resolver uma situação de disputa, a empatia se encaixa perfeitamente para aliviar o mal-estar ou evitar mais conflitos, certo? Os advogados que os digam.

Como estudante de Direito, não fugi do rumo que o texto tomou e segui nos exemplos básicos dentro da área jurídica concluindo como a sua aplicação se desenvolve de forma discreta e como pode ser ainda mais explorada.

Mas, esse texto ultrapassa a intenção de citar algumas conclusões ou exemplos da empatia no meu querido Direito. Minhas palavras aqui ultrapassam esta área e tentam demonstrar como é simples e bonita a possibilidade de melhorar a nossa vida, pessoal ou profissional, através de um sentimento que já nasce com a gente. Ter equilíbrio, ser um ser humano altruísta e proativo não é fácil, requer paciência, que requer a arte de colocar em prática toda a sabedoria adocicada pela sutileza da espera.

Aos 18 anos conheci o livro “Uma ética para o novo milênio” do Dalai Lama em que também tratava sobre a empatia e dava um toque especial ao apresentá-la como um bom remédio para a ansiedade a qual se faz presente tão intensamente em nós.

“As coisas e acontecimentos só ocorrem como resultado de inumeráveis causas e condições. Nossa tendência é nos concentrarmos exclusivamente em um ou dois aspectos do que está acontecendo. Ao agir assim, inevitavelmente nos limitamos a procurar meios para superar apenas aqueles aspectos. O problema é que, quando não os encontramos, corremos o risco de cair em total desânimo e desorientação. O primeiro passo para superar a ansiedade é, então, desenvolver uma perspectiva adequada da situação.

Podemos fazer isso de diversas maneiras diferentes. Uma das mais eficazes é procurar desviar o foco da atenção de nós para os outros (...).

Bem, de forma saudável esse trecho me inspira e senti a necessidade de compartilhar. Quando desejo e peço mudanças eu também as ofereço, da minha forma, mas ofereço, e a minha escolha é a empatia. Pratico de forma saudável e motivadora. 


Não perde tempo e também escolhe a tua, quem sabe um grande segredo coletivo não está aí...

sábado, 4 de fevereiro de 2017

“Pátria Madrasta Vil”: uma revolução silenciosa em curso?

Descobri recentemente um texto intitulado “Pátria Madrasta Vil”. A composição, de autoria de Clarice Zeitel Vianna Silva, na época estudante de direito na UFRJ, venceu, junto com mais 99 textos, um concurso nacional organizado pelo jornal Folha Dirigida e UNESCO Brasil, envolvendo 50.000 candidatos. O ano era 2008. A UNESCO patrocinou a iniciativa como meio de apoio à divulgação dos oito objetivos para o desenvolvimento do Milênio aprovados pelas Nações Unidas em 2000 por 189 países, entre eles o Brasil, a serem trabalhados até o ano 2015. Dentre os objetivos, constavam a eliminação da pobreza e combate à desigualdade, temas centrais do referido concurso. Os 100 textos foram reunidos e publicados em uma coletânea disponível na biblioteca virtual da UNESCO. Para os interessados, o livro é acessível no seguinte endereço: http://unesdoc.unesco.org/images/0015/001576/157625m.pdf

O texto-poema de Clarice acabou naquela época ganhando destaque nacional. A autora foi convidada em diversos eventos. O conteúdo provocador e ácido incendiou as redes sociais, seja para ataca-la ou defende-la, alvo de críticas e elogios, tanto na forma como no conteúdo do texto. Por ser extenso, só reproduzirei aqui os primeiros versos e comentarei outros trechos. Reitero portanto meu convite aos interessados para acessar o retro mencionado link e consultar a versão integral.

Assim começa o poema intitulado “Pátria Madrasta Vil”:


“Onde já se viu tanto excesso de falta?Abundância de inexistência...Exagero de escassez...Contraditórios?Então aí está!O novo nome do nosso país!Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.”

Partindo de um trecho do hino nacional, “dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada, Brasil”, Clarice elabora uma extensa argumentação rejeitando a parábola ora proposta de “mãe gentil” para a pátria Brasil. Em subsequentes versos, sublinha contradições, enganações, hipocrisias e ilusões vividas por sucessivas gerações de cidadãos “que não aprenderam a ser cidadão” (sic).

No decorrer de sua aclamação, acaba enaltecendo a necessidade por mudanças estruturais, revolucionárias, que “quebrem esse sistema-esquema social montado” através de mudanças que, de fato, transformem e não simplesmente reproduzam os referido esquema sob novas máscaras.

Ela reconhece, no entanto, que para tal mudança ocorrer, falta um fator fundamental que permita o alcance da igualdade na sociedade brasileira: “nossa participação efetiva”. Finaliza afirmando que somente uma revolução estrutural “de dentro para fora e que não exclua, nada nem ninguém de seus efeitos” conseguirá acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil, pedindo portanto um posicionamento individual perante o mundo, perante o coletivo, que ela resume na expressão “cada um por todos”.

Não é minha intenção neste artigo julgar ou revisitar o debate da época. Como já disse, muito já foi escrito a respeito em trocas extensivas de opiniões e contra afirmações para as quais pouco teria de interessante a somar. Quase uma década se passou desde então. Os objetivos onusianos do milênio estabelecidos para 2015 foram reconduzidos em essência, mesmo que sob renovadas luzes, na chamada agenda “pós 2015”. O grito de Clarice quanto à problemática estrutural brasileira, parece-me, ganhou novo destaque com os acontecimentos destes últimos anos, independentemente dos julgamentos de valor sobre a veracidade ou coerência das afirmações por ela listadas.

O fato é que a leitura do texto me remeteu aos ensinamentos de um professor de filosofia chileno, Luiz Razeto, que veio compartilhar visões da academia sobre os contextos e condições de criação de uma nova civilização, durante conferência, ano passado, em um congresso sobre cidadania planetária em Fortaleza – CE.

Não pude deixar de reparar que certas das afirmações de Clarice ecoavam no discurso do professor. Para resumir, irei manter-me no eixo em torno do qual este desenvolveu sua apresentação: a capacidade de inclusão como fator fundamental a partir do qual pode-se avaliar a sobrevivência de uma civilização ou nascimento, em meio a muitas turbulências, de uma nova civilização enquanto a antiga se desintegra, seja gradualmente, seja abruptamente, em processo caótico de transição até que os novos paradigmas consigam sobrepor-se aos antigos.

O professor enfatizou que, enquanto a deterioração acontece essencialmente à nível macrossocial nas grandes e condicionadas estruturas políticas, econômicas e culturais que começam a não mais conseguir cumprir com suas missões, a nova civilização só pode começar a nível microssocial, demandando participação cidadã ativa e, claro, bastante tempo, através de iniciativas particulares e concretas.

Clarice, em seu poema, lançou um grito um tanto pessimista sobre a situação da sociedade Brasileira, lamentando a ausência do cidadão para que transformações consigam nascer e se desenvolver. Dez anos depois, à luz dos eventos mais recentes e observações pessoais, portanto, sujeitas a clara subjetividade, devo confessar certo otimismo apesar dos obstáculos e situações enfrentados nas grandes estruturas da sociedade.

Vejo cidadãos mais ativos, cobrando posturas, quaisquer que sejam, em debate caloroso e saudável sobre tais estruturas. Mas também vejo inúmeras iniciativas concretas de ajuda ao próximo. Brasileiros estão cada vez mais engajados em ajudar em associações, ONGs e outras entidades, formais ou informais para auxiliar os necessitados. Á nível mais pessoal ainda, vejo mudanças em perfis de consumo, uma consciência mais esclarecida surgindo sobre a necessidade do respeito à natureza. Virou rotina o uso dos espaços públicos e de trânsito na cidade, para esporte e passeios nos fins de semana, envolvendo família e amigos, espaços que até pouco tempo não eram usados para tais.

Seguindo a raciocínio proposto pelo Professor Razeto, uma transformação estaria de fato ocorrendo à nível microssocial, talvez ainda tímida, minoritária mas ganhando novos adeptos em ritmo acelerado pelo que consigo testemunhar. Em menos de 10 anos, em meio à uma crise sistêmica, saímos de uma situação de lamentação e críticas ásperas para uma nova era de ação local engajada, servindo de exemplo multiplicador. Como mencionado em artigo escrito por uma das coautoras do Matutando o Brasil, “um novo Brasil está germinando”. Sim, Clarice, a sua sonhada revolução parece já estar em curso, talvez ainda silenciosa, mas bem real. Não há mais lugar para exacerbado pessimismo. Por mais que muito haja a ser feito e enfrentado, a roda brasileira da fortuna começou a girar, incentivando participação cidadã ativa. Paremos de focar o que não funciona e elejamos a ação local, aquela bem ao nosso alcance como método eficaz de verdadeira e testemunhável transformação. São estas ações que renovam energias e esperanças favorecendo a construção de um país e, por consequência, de um mundo menos pobre e desigual, fundamentado na prática da inclusão e do respeito a si mesmo, ao próximo e à natureza.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"O Terrível Capitão América"


*texto publicado originalmente no jornal O POVO em 2012

Tenho muita desconfiança e receio dessa mania norte-americana, à vista grossa da cenográfica ONU, de “assumir as dores de todo o mundo”, feito um indesejado Super-Homem ou qualquer um desses heróis de meia-tigela que sobrevoam os céus de cuecas ao avesso (nunca entendi isso) e o imaginário desse povo ególatra, ruim de geografia, tarado por basquete e que enfeita tudo com gergelim, fritas e bacon.
Os Estados Unidos, num american dream, enriqueceram na base do comércio e fabricação de armas, ou de largos empréstimos para a sua compra, mantendo acesas as guerras e o terrorismo no mundo, cúmplice silencioso em discursos de piece and love,  fazendo o seu próprio terrorismo, o econômico-predatório, o que devasta — sem comida, sem água, sem recursos e sem jeito — os países que nem queremos saber que existem, pois são, em sua maioria, dominados por ditadores broncos, líderes fanáticos, habitados por gente pobre, “atrasada”, não-cristã e doente, repletos de pestes da moda (Aids/Sida, Ébola) ou mesmo as históricas, já extintas nos demais países, e outras novidades do Oriente. Esses povos que, se escaparem de tudo isso isso, ainda lhes restará a fome, a sede, a violência, a humilhação, o desprezo, o estupro, enfim, uma série de mazelas que “não nos dizem respeito” porque somos “emergentes”, já fomos pobres, “zés cariocas”, hoje, não, somos abençoados por Deus e bonitos por natureza, exclusive os milhares de brasileiros que ainda não entenderam direito o tal american way of life.
São muitas as histórias de personagens americanos que, por não agradarem a inteligência pentagonal, acabaram “comendo capim” cedo, geralmente mortos por tiros de um doido que vinha passando na rua e blá-blá-blá. Mistérios indissolúveis do senhor Columbo, via “efibiai”, “siaiei” e “mibi” na série “Acredite se Puder”.
Não vou mentir. Senti-me enojado com o clima de celebração transmitido pela TV mundial, via Casa Branca, após o assassinato do Mister Bin (Osama Bin Laden). Triste o ufanismo daqueles a aguardar a desejada execução e a não surpreendente “vitória” americana — por conta disso, em único dia, o Barack Hussein Obama (nome irônico...) aumentou em 9 pontos a sua expectativa de reeleição, o dólar aumentou sua cotação e os índices da bolsa americana subiram.
E mais: mataram a cobra e não mostraram o pau. Cadê o homem? Jogaram no mar, enrolado em branco, respeitando-lhe os rituais da crença... Que comédia é essa?
Por isso lembrei também de quando eles mataram o Che Guevara, este que hoje enfeita as camisas dos revolucionários ou pseudo-revolucionários (pelo menos ajuda a ganhar a mulherada na faculdade ou se passar por um “mente aberta”). A comemoração foi daí para melhor, com direito a troféu e tudo (como aqui bem os imitaram com a exposição do Marighela). Não estou comparando o Che com o Osama. Aliás, este cabra santo não era — como não é o Obama nem o Lula —, mas não posso aceitar que os Estados Unidos tomem nas mãos a soberania de países alheios, principalmente quando inventam motivos para destruir seus inimigos, às vezes, ex-aliados, às vezes, gente que sabe demais (ou de mais). Sempre tão culpados de tanta coisa, têm, a seu favor, o poder da imagem, o homem-aranha, os programas, Hollywood, a Coca-Cola, o Toy Story e, infelizmente, o Dr. Jivago, que originalmente é russo.
Quando os MacAmericanos, similares ao seu herói genocida Custer, invadiram o Iraque com a justificativa de acabar com as armas químicas, tipo assim, “Putz, foi mal, não encontramos, ó”, mesmo após tanta devastação, ainda fizeram desserviços à humanidade, como: saque de milhares de objetos do Museu do Iraque (entre eles, dezenas de esculturas assírias em marfim); a destruição de sítios arqueológicos sumérios (povo que inventou a escrita em 3.000 a.C.), por ação de bombas ou para serem transformados em heliportos e estacionamento de veículos militares; a perda do acervo de manuscritos sobre a civilização mesopotâmica, por incêndio da Biblioteca Nacional do Iraque no dia da conquista de Bagdá; danos ao Portão de Ishtar, a entrada principal da Babilônia, que resistiu à destruição pelos Persas no século VI a.C., mas que, ao povo norte-americano se rendeu.
 Cabe bem daí a nossa atenção. Pode ser que um dia eles cismem em nos tirar alguma coisa — nossos recursos naturais, por exemplo, que ninguém no mundo tem igual, mas que por aqui desperdiçamos — e, no afã de nos proteger de nós mesmos, será um salvem-se quem puder, We are the World, pois até parece que ninguém está conosco, se eles também não estiverem. 

And The End.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Velhos fatos, novos votos



Por estes dias escutei de uma paciente: “O ano já começou assim, com o povo se matando um ao outro.” O desgosto era visível no seu rosto, e a desesperança, evidente. A julgar pelos comentários ditos por amigos e lidos em jornais e redes sociais, a impressão é de que, exceto pelos bons momentos e conquistas, a maioria está farta – e com indigestão – do ano passado, sofrendo de amargo e doloroso refluxo de situações e conjunturas diversas, muitas delas agregadas sob o nome de “crise” (que, apesar de ter começado antes, ficou mais evidente em 2016). A insatisfação com os políticos em geral, independentemente de partidos, roubou o palco das indignações populares. Vem à lembrança, neste momento, o verbete “Política interna” do Dicionário Filosófico de Voltaire (Ed. Martin Claret, 2002), que começa assim: “Consiste em possuir em vosso próprio país o maior poder, as maiores honras e os maiores prazeres que forem possíveis. Só se consegue com muito dinheiro.”
Tais sentimentos foram em parte amenizados pelo combate à corrupção, que tem trazido de fato algo diferente no modo como as coisas são feitas no Brasil. E não é só por aqui. A Suíça, destino predileto de dinheiro desviado, começou a desmontar seu sistema de sigilo bancário neste início de ano. Espera-se que, apesar dos interesses contrários de certos poderosos, pelo menos algumas medidas eficazes nesse combate permaneçam firmes.
Neste começo de 2017, também se percebe um sentimento crônico agudizado de apreensão pelo que está por vir, bastante devido às propostas polêmicas que deverão ser votadas. Propostas que mexem com o bolso, com valores morais, com posições. A expectativa é de acaloradas discussões e protestos. Algo preocupante é com que base as pessoas vão debater e entender os debates sobre esses pontos.
Supõe-se que, para defender uma posição sobre dado assunto, um indivíduo tenha que possuir informações bem fundamentadas sobre a matéria em questão. Ainda mais quando se trata de significativas questões em votação. Mas parece que isso não é prática corrente em vários lugares. Um exemplo marcante, na verdade já muito difundido, é o da saída do Reino Unido da União Europeia – o famoso Brexit –, em junho passado. Sem entrar no mérito da decisão da maioria dos britânicos votantes, chamou a atenção que, após o resultado da votação ter sido anunciado, a segunda pergunta mais pesquisada por britânicos no Google foi “o que é União Europeia”. Se esse dado divulgado está correto, é perturbador imaginar o que várias dessas pessoas estavam considerando quando tomaram suas decisões.
Um termo curioso que, como a crise, já existia mas se evidenciou no ano passado, foi eleito pelo Dicionário Oxford “a palavra do ano”: chama-se post-truth, traduzido como “pós-verdade”, cujo conceito é: “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Esse termo foi extensivamente aplicado ao Brexit e associado à vitória de Donald Trump e ao discurso de direita (como se fosse artimanha exclusiva de um grupo político). Não se trata aqui de discutir quais notícias são falsas, quais informações são boatos e por quais redes sociais, jornais ou revistas circulam. Esse fenômeno revela uma disposição e uma atitude mental perigosa para os debates saudáveis e as decisões conscientes. Parece que não importa o conhecimento, o saber, a objetividade. “Cada qual que se feche em seu mundinho e veja só o que quer ver.”

Conhecimento e sabedoria para discernir entre tantas informações. Este blog tem frequentemente abordado essa questão. Espero que faça parte de nossos votos, neste começo de ano (não deixemos só para depois do Carnaval!), buscar mais conhecimento e sabedoria. Vamos precisar!Por estes dias escutei de uma paciente: “O ano já começou assim, com o povo se matando um ao outro.” O desgosto era visível no seu rosto, e a desesperança, evidente. A julgar pelos comentários ditos por amigos e lidos em jornais e redes sociais, a impressão é de que, exceto pelos bons momentos e conquistas, a maioria está farta – e com indigestão – do ano passado, sofrendo de amargo e doloroso refluxo de situações e conjunturas diversas, muitas delas agregadas sob o nome de “crise” (que, apesar de ter começado antes, ficou mais evidente em 2016). A insatisfação com os políticos em geral, independentemente de partidos, roubou o palco das indignações populares. Vem à lembrança, neste momento, o verbete “Política interna” do Dicionário Filosófico de Voltaire (Ed. Martin Claret, 2002), que começa assim: “Consiste em possuir em vosso próprio país o maior poder, as maiores honras e os maiores prazeres que forem possíveis. Só se consegue com muito dinheiro.”
Tais sentimentos foram em parte amenizados pelo combate à corrupção, que tem trazido de fato algo diferente no modo como as coisas são feitas no Brasil. E não é só por aqui. A Suíça, destino predileto de dinheiro desviado, começou a desmontar seu sistema de sigilo bancário neste início de ano. Espera-se que, apesar dos interesses contrários de certos poderosos, pelo menos algumas medidas eficazes nesse combate permaneçam firmes.
Neste começo de 2017, também se percebe um sentimento crônico agudizado de apreensão pelo que está por vir, bastante devido às propostas polêmicas que deverão ser votadas. Propostas que mexem com o bolso, com valores morais, com posições. A expectativa é de acaloradas discussões e protestos. Algo preocupante é com que base as pessoas vão debater e entender os debates sobre esses pontos.
Supõe-se que, para defender uma posição sobre dado assunto, um indivíduo tenha que possuir informações bem fundamentadas sobre a matéria em questão. Ainda mais quando se trata de significativas questões em votação. Mas parece que isso não é prática corrente em vários lugares. Um exemplo marcante, na verdade já muito difundido, é o da saída do Reino Unido da União Europeia – o famoso Brexit –, em junho passado. Sem entrar no mérito da decisão da maioria dos britânicos votantes, chamou a atenção que, após o resultado da votação ter sido anunciado, a segunda pergunta mais pesquisada por britânicos no Google foi “o que é União Europeia”. Se esse dado divulgado está correto, é perturbador imaginar o que várias dessas pessoas estavam considerando quando tomaram suas decisões.
Um termo curioso que, como a crise, já existia mas se evidenciou no ano passado, foi eleito pelo Dicionário Oxford “a palavra do ano”: chama-se post-truth, traduzido como “pós-verdade”, cujo conceito é: “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Esse termo foi extensivamente aplicado ao Brexit e associado à vitória de Donald Trump e ao discurso de direita (como se fosse artimanha exclusiva de um grupo político). Não se trata aqui de discutir quais notícias são falsas, quais informações são boatos e por quais redes sociais, jornais ou revistas circulam. Esse fenômeno revela uma disposição e uma atitude mental perigosa para os debates saudáveis e as decisões conscientes. Parece que não importa o conhecimento, o saber, a objetividade. “Cada qual que se feche em seu mundinho e veja só o que quer ver.”
Conhecimento e sabedoria para discernir entre tantas informações. Este blog tem frequentemente abordado essa questão. Espero que faça parte de nossos votos, neste começo de ano (não deixemos só para depois do Carnaval!), buscar mais conhecimento e sabedoria. Vamos precisar!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Os monstros da direita

Hoje é dia 28 de dezembro, dia em que, no ano de 1990, foi editada a lei de criação do SUS. Entre outras medidas sociais de nossa Constituição, o SUS foi mais uma medida que aumentou as obrigações do Estado brasileiro. 

Sou médico desde o final de 2007. Logo após formado, tive a oportunidade de trabalhar como médico de família e pude conhecer de perto a realidade de uma população muito pobre e sofrida de meu país. Trabalhei em três municípios do Sertão nordestino, em meu estado, Ceará, ao longo de cerca de dois anos. O que uma experiência de convivência com a pobreza pode trazer para um indivíduo? Certamente muito! Vivendo numa região tão carente, pude presenciar, na prática, muitas questões assistenciais que ocorrem no Brasil. A inspiração deste texto partiu de um relato que li nas redes sociais atribuído a uma colega médica, Júlia Rocha, que afirmava que toda sua ideologia atual veio após uma convivência como médica de família. Dizia ela que, antes de trabalhar com pacientes pobres, era egoísta, homofóbica e contra o bolsa-família. Achava que o feminismo era o oposto do machismo, mas, segundo afirmou, encontrou a salvação e hoje defende todas essas bandeiras da esquerda, o que inclui o financiamento público de campanha. Ao final de seu texto, com o bordão #foramonstros, atribuiu às pessoas ruins a defesa por menor acesso ao sistema público de saúde e o maior tempo de contribuição previdenciária. Afinal, é preciso ser uma pessoa ruim para defender as bandeiras liberais? As pessoas que defendem menos impostos e mais liberdades individuais estão prejudicando os mais pobres?

A maneira mais eficaz de encontrar verdades atualmente é através das pesquisas. Uma boa pesquisa, por sua vez, utiliza um bom método. Uma experiência pessoal, como a dessa minha colega de esquerda, no entanto, pode servir sim de inspiração para que cheguemos às verdades. Minhas dúvidas são: as ideias bem intencionadas da esquerda são mesmo benéficas? A lei do salário mínimo aumenta os salários? O sistema público de saúde provê uma melhor saúde? Defender mais liberdade econômica é maléfico aos trabalhadores? 

A realidade da pobreza

Muitos não conhecem a realidade das cidades muito pobres, mas no Sertão nordestino, um restaurante ou uma lanchonete é às vezes uma raridade. Numa das cidades onde trabalhei, encontrei uma senhora aposentada, D. Tereza, que usava a parte da frente de sua casa para comercializar alguns alimentos, o que ajudava nas contas de casa. Tive a oportunidade de comer pasteis deliciosos ao módico preço de R$ 0,50, que, mesmo em 2009, era muito pouco. Ela trabalhava com sua filha. Num determinado dia, após meu expediente, em busca do pastel, tenho a infeliz surpresa de que a D. Tereza havia fechado seu estabelecimento, pois sua filha fora aprovada num concurso em outra cidade. Questionei à D. Tereza por que ela não chamava alguma outra pessoa para ajudá-la? A resposta dela não sai da minha memória: o que eu ganho com as vendas não me permite pagar um salário registrado. Dizendo de outra forma: o comércio dela gerava renda a ela e sua filha, mas não era suficiente para gerar a ela uma renda pagando um salário a uma pessoa. Nas cidades ricas do país, como São Paulo, não há muitos empregos que oferecem apenas o salário-mínimo, a maioria dos empregos pagam mais. Numa cidade onde um pastel custa R$ 0,50, um salário-mínimo nem pode ser pago. Minha questão: o que é melhor para a cidade pobre: a D. Tereza contratar alguém por metade de um salário mínimo (ou qualquer outro valor) ou a D. Tereza fechar as portas (como fechou)? E para o potencial funcionário da D. Tereza? É melhor receber meio salário mínimo ou é melhor não ter o emprego e receber, em troca, 10% de um salário mínimo (o bolsa-família)? A existência do salário-mínimo, neste caso pontual, foi ruim para D. Tereza, pois ela teve que fechar seu comércio, foi ruim para o eventual empregado, que perdeu a oportunidade, e foi ruim para a cidade, que perdeu uma fonte de renda e impostos. A intenção de obrigar um pagamento mínimo é ótima, mas seus reais efeitos são o oposto da intenção: gera desemprego e estagnação econômica. Pergunto: é melhor defender uma ideia por sua boa intenção ou por seu efeito real?

Tive a feliz oportunidade de atender inúmeros agricultores. Surpreenderam-me, pois eram os mais honestos, os mais trabalhadores, porém, os mais pobres. Muitos me diziam se orgulhar de pagar seu sindicato. Achei isso muito curioso, pois os agricultores não eram, em minha cabeça urbana, uma categoria muito sindicalizada, mas sim autônomos em suas pequenas terras. Perguntei a vários e, depois de um tempo, entendi: eles pagavam o sindicato, mas não recolhiam o INSS. Pagar o sindicato é uma maneira de comprovar a profissão de agricultor, o que lhe concede o benefício de aposentar-se como trabalhador rural, mesmo sem ter pago contribuições previdenciárias. Um dia presenciei uma reunião do sindicato, onde pude escutar todas as frases clichês marxistas, e ouvi os sindicalistas convencendo os agricultores da importância de pagar o sindicato, para que pudessem receber seus direitos. Os agricultores estavam pagando sindicato para se aposentarem, mas o seu pagador, a Previdência, nada recebia. Isso, pela lei atual, não é ilegal.

Mas nem tudo são espinhos na pobreza de meu estado. Eu tive momentos que me trouxeram um enorme sentimento de otimismo. Muitos pacientes que eu atendia não tomavam seus remédios corretamente por não entenderem como fazê-lo. Eu tinha que me desdobrar para tornar minha receita mais eficaz: diminuía a quantidade de remédios, desenhava sol e lua para que os que não liam entendessem ser um comprimido pela manhã e um a noite, enfim, era um desafio diário. Comecei a perceber então que os pacientes acompanhados de seus filhos ou netos tinham uma enorme vantagem: todas as crianças sabiam ler! Passei até a recomendar que viessem acompanhados deles, pois ajudava muito ao paciente que outra pessoa entendesse a receita para que lhe explicasse em casa. Foi um verdadeiro momento de epifania: percebi que as novas gerações estavam com uma vantagem enorme, e que o futuro poderia ser sim promissor!

Algumas tentativas para mitigar a pobreza podem, na verdade, aumentá-la.

Algumas tentativas para mitigar a pobreza e o sofrimento podem, na verdade, aumentá-la! Quando um defensor do agricultor pobre afirma que ele tem o direito de se aposentar aos 55 anos mesmo sem ter contribuído à Previdência, pois há recursos do PIS, COFINS, CSLL e imposto de importação, como manda a Constituição, esse defensor precisa saber que quem paga esses impostos são pessoas como a D. Tereza, dos pasteis. Ajudar o agricultor é muito importante, mas isso não pode custar o negócio da D Tereza, pois, assim, o resultado será o oposto à intenção. Além disso, quando um governo gasta 30% do orçamento com previdência, mas apenas 6% com educação, ele está sendo filantropo, porém, não está resolvendo a pobreza. Quando alguém defende o aumento (ou a existência) do salário mínimo, involuntariamente, esse alguém está defendendo um maior desemprego. Não é minha opinião, são as consequências inevitáveis do sistema voluntário de trocas comerciais da humanidade. Numa cidade onde o salário mínimo for maior do que a capacidade de o empregador pagar, haverá uma menor oferta de empregos.

O discurso de que é por falta de coração que pessoas defendem políticas econômicas mais liberais e menos estatizantes é falso!

Conhecer a pobreza, ver nos olhos do outro suas necessidades básicas, deve, sim, sensibilizar as pessoas de bem! O que fazer para diminuir esse sofrimento, no entanto, deve ser bastante estudado para que seja eficaz. Um liberal, quando defende o fim do salário mínimo, está lembrando da D. Tereza, que poderia tornar viável o seu pequeno comércio de pasteis! A defesa de uma previdência pública mais enxuta tem o objetivo de poupar os gastos públicos, pois, para pagar um direito de alguém que não contribuiu para isso, será tirado dinheiro de um outro (a D Tereza pagar COFINS para a Previdência poder pagar a aposentadoria do agricultor), além de coibir o jeitinho brasileiro (o agricultor pagar para um sindicato ao invés de pagar para a Previdência). A esquerda não tem o monopólio da virtude. O discurso de que é por falta de coração que pessoas defendem políticas econômicas mais liberais e menos estatizantes é um discurso falso ou ignorante. É por conhecer a pobreza, é por conhecer o sofrimento dos outros que os liberais defendem as políticas liberais.

O verdadeiro gerador de riqueza e progresso é o indivíduo, seja o agricultor, o comerciante ou o industrial. Quanto mais valor o indivíduo consegue produzir, maior o enriquecimento da população. A medida de maior impacto no aumento da riqueza é conseguir produzir mais com o mesmo custo (produtividade) e, para isso, são necessárias ferramentas e invenções provenientes da educação. Gasto público em qualquer área pode trazer impactos bons ou ruins por muito ou pouco tempo, mas um gasto que gera impactos positivos que se multiplicam sozinhos é o gasto com a educação. O Estado pode, sim, ser uma instituição a quem recorrer numa situação de necessidade, mas, por ser sempre menos eficiente, deve ser o último recurso, não o primeiro. A prioridade do Estado deve ser tornar possível aos seus cidadãos realizarem seus afazeres. Faz-se isso ao estimular e promover a educação, por um lado, e ao não atrapalhar com impostos e regulamentações excessivas. Este é o verdadeiro papel do Estado. O Estado ser uma gigantesca e ineficiente instituição filantrópica irá dificultar isso. E não sou monstro por pensar assim.