domingo, 2 de abril de 2017

Empoderamento e cidadania, uma visão brasileira




No último artigo que tive o prazer de compartilhar no blog, abordei uma temática relativa à mudanças microssociais ocorrendo na sociedade brasileira, empiricamente testemunhadas no meu entorno, que, apesar de ainda constituírem movimentos minoritários, encontrando-se, diriam alguns, em estágio embrionário (as famosas sementes), deviam ser apreendidas com otimismo. Haveria, no meu ver, demonstração de capacidade cidadã em criar, adaptar-se e até mesmo transformar velhos padrões ainda dominantes usando referenciais que valorizem atitudes como solidariedade, inclusão e integração em uma expressão mais visível e concreta de amor ao próximo.

Um amigo, ao ler o artigo, comentou sobre a necessidade de empoderamento dos Brasileiros para que tal transição ocorra. O comentário me interpelou e me instigou a primeiramente entender melhor o significado deste neologismo recém difundido. Segundo, interessou-me a aplicabilidade daquele conceito na sociedade Brasileira em busca de transformação mais efetiva e sustentável, mesmo que ainda bastante inconsciente.

A palavra “empoderamento” é descrita em dicionários da língua portuguesa como Aurélio e Houaiss. De acordo com eles, o termo conceitua o ato ou efeito de promover conscientização e tomada de poder de influência de uma pessoa ou grupo social, geralmente para realizar mudanças de ordem social, política, econômica e cultural no contexto que lhe afeta.

A ideia seria portanto dar a alguém ou a um grupo o poder de decisão em vez de tutelá-lo.

O termo “empoderamento” retro definido provém da tradução literal do termo inglês “empowerment”, surgido nos Estados Unidos há uns 30 a 40 anos em contexto acadêmico. Reza a lenda, aceita pela maioria, que o pesquisador em psicologia social, Julian Rapapport, teria cunhado o termo “empowerment” com a intenção de descrever um fenômeno observado e a ser encorajado nas esferas individual e comunitária.

De fato, o neologismo, em sua origem, tenta descrever processos que dizem respeito à individualidade, o “empoderamento pessoal”, uma abordagem oferecida em psicologia que deve permitir a emancipação do indivíduo, ganhando autonomia e liberdade. Profissionais de coaching têm usado com frequência aquele conceito como motor para suas atividades de desenvolvimento pessoal.

Consequência natural desse empoderamento pessoal, surge uma capacidade individual em identificar-se a determinados grupos, gerar sentimentos intra-grupo de respeito recíproco, ao sentir-se pertencente plenamente a uma comunidade, defendendo suas necessidades perante o restante da sociedade. Os movimentos feministas é que melhor representam essa dimensão comunitária do empoderamento. Apesar do feminimo ser o movimento mais comumente associado ao vocábulo “empoderamento” em sua dimensão grupal, este designa a batalha por reconhecimento e inclusão de toda comunidade que, de alguma forma, pode ser considerada minoritária e/ou vítima de diversas injustiças. O interessante é notar que a prática contínua deste sentimento de respeito e defesa de causa tende a desencadear no indivíduo uma capacidade de expressão de solidariedade que transpassa sua própria comunidade, identificando-se de alguma maneira com as dificuldades enfrentadas por outros grupos vulneráveis. Minha colocação sobre iniciativas testemunhadas inserem-se nesse nível de entendimento do fenômeno solidário em processo gradual de empoderamento.

Mas, poderão tais fenômenos provocar mudanças significativas nas estruturas da sociedade na qual se inserem? Ou seja, poderia existir um terceiro nível de “empoderamento” que poderíamos chamar de societal? A pergunta liga portanto o empoderamento à uma prática cidadã esclarecida e responsável.

Pois bem, para minha surpresa, existe uma visão brasileira tradicional sobre o assunto, sugerida pelo educador Paulo Freire. Para ele, o “empowerment”, em sua versão original, enfatizaria a problemática da liberdade individual, pilar fundador da sociedade norte americana. Apesar de reconhecer que tal prática seja um passo necessário à uma prática cidadã mais responsável, ela, em si, não seria suficiente para que o salto entre o nível comunitário e societal ocorra. Para tanto, Paulo Freire reforça a necessidade de conscientização, um processo mais amplo do que o empoderamento. Ou, melhor dizendo, o empoderamento como ferramenta necessária, passo obrigatório rumo à uma conscientização que permita gerar mudança saudável de entendimentos e comportamentos, não somente no contexto individual ou do grupo, mas também à nível societal.

Como encorajar então esse movimento de conscientização coletiva? Até onde pude perceber nas poucas leituras que eu realizei sobre o assunto, as áreas da saúde, entre elas medicina comunitária e saúde coletiva parecem ser vanguardistas no assunto incentivando a implementação de ações diversas, transdisciplinares e transdimensionais, que auxiliem nesse tal salto de conscientização. Não por acaso, o amigo que citei no início do artigo atua em pesquisas na área de saúde coletiva.

A meta é alvejar tanto o nível individual do empoderamento, ou seja, reconhecer a necessidade de transformar-se, integrar novos hábitos em todas as áreas de sua vida que sirvam de “seguros” por assim dizer à sua saúde física, emocional e mental, como o nível do empoderamento comunitário em ações conjuntas destes indivíduos, enfrentando perigos e desafios similares para que, juntos, achem soluções viáveis e sustentáveis, perante por exemplo, problemas ligados à sujeira nos ambientes, cuidados com a água, elaborando e implantando ações reparadoras e educativas. Assim, há, claramente, a necessidade de implantação de políticas públicas que permitam que esses indivíduos e coletividades consigam reconhecer e assumir suas responsabilidades. Cuidado, a meta não é que a política pública se substitua ao esforço local. Ao contrário, trata-se, nas políticas públicas sugeridas, de dar apoio ao processo de responsabilização e conscientização, delegando poderes a estes, em vez de tutelá-los: um voto de confiança em suas capacidades criativas na busca de soluções que façam sentido e gerem, portanto, verdadeira diferença no contexto específico destes indivíduos e comunidades ou grupos.

Baseado nesses exemplos da área de saúde e seguindo o raciocínio proposto na prática cidadã em política, haveria, no meu entender uma necessidade de revisão profunda das práticas políticas tradicionalmente diretivas. Estas deveriam privilegiar uma postura que foque o suporte às iniciativas isoladas, fomentando meios para que estas possam florescer e sustentar-se, respeitando suas especificidades. Ou seja, trata-se de estabelecer políticas que deem mais poder e autonomia às ações locais, micro ações, que deem mais visibilidade e acesso ao cidadão para expressar suas necessidades e expectativas, seja em nome de um grupo ou representando uma demanda difundida na sociedade como um todo.

Aquilo me lembra a prática da democracia participativa, um movimento identificável em vários países e frequentemente viabilizada com uso da ferramenta internet, incluindo, por exemplo, iniciativas para propor projetos em plataformas especiais oferecidas por Governos e, que, a partir de um determinado número de votos recebidos, passam a ser pauta obrigatória para o poder legislativo. As iniciativas de transparência de contas, convite à organizações não governamentais e representantes de coletividades em decisões específicas integram um conjunto de ações que configuram uma nova maneira de se fazer política, de ser cidadão. De novo, estas tendências estão surgindo agora. Sua consolidação depende de mudança nas mentalidades a respeito da política, sujeita a crítica e rejeição, após anos de práticas tendendo à imposição e uniformização. 

O empoderamento como caminho para conscientização e consequente mudança societal é possível, sim. Para concluir, permito-me reproduzir abaixo as palavras de Paulo Freire quando indagado sobre a possibilidade efetiva de mudanças na sociedade:

Se é possível obter água cavando o chão,
se é possível enfeitar a casa,
se é possível crer desta ou daquela forma,
se é possível nos defender do frio ou do calor,
se é possível desviar leitos de rios, fazer barragens,
se é possível mudar o mundo que não fizemos, o da natureza,
por que não mudar o mundo que fazemos, o da cultura, o da história, o da política?

quarta-feira, 22 de março de 2017

O que está escrito? Como lês?


“O que está escrito na lei? Como lês? ” Nessa passagem bíblica, registrada no evangelho de Lucas (10:26), Jesus responde, com um duplo questionamento, a um doutor da lei que o abordara perguntando o que deveria fazer para ter a vida eterna. Primeiramente, quero esclarecer que esse texto do Matutando o Brasil não se trata de um sermão. Antes, procura, assim como os outros textos do blog, trazer uma reflexão.

Há algum tempo já se diz que estamos na “era da informação”, que nos encontramos até numa guerra de informação, o bem mais precioso no mercado. A rapidez e a facilidade com que circulam notícias, boatos, dados financeiros, fotos etc. chega a ser estonteante. Um dos perigos que vêm sendo apontados é a distorção de fatos, gerando factoides que são propagados – e frequentemente aceitos – como verdade, especialmente quando há forte apelo emocional e reforço dos preconceitos. Muitas vezes fica difícil separar o joio do trigo, já que a informação anda com maior potencial de contaminação do que muita carne por aí.

Nesse contexto, é interessante a dupla pergunta de Jesus ao doutor: “O que está escrito? ”, ou seja, quais são os dados apresentados; e “Como lês? ”, quer dizer, como ele, um especialista, analisa e interpreta tais dados. Temos aí no mínimo dois problemas. O primeiro refere-se à informação em si – se está adequada, incompleta ou adulterada. Até no meio científico, no qual deveria reinar o maior respeito pela busca da verdade e pela veracidade dos dados, encontram-se maçãs podres, para defender interesses ideológicos e financeiros. A fonte dos dados é de confiança? Para quem?

Uma outra questão é a da análise desses dados. “Não existem fatos, apenas interpretações”, diz Nietzsche. Ora, se especialistas muitas vezes divergem sobre determinado assunto, como fica o pobre do leigo? Imagine o desespero de pacientes que passam por diversos médicos, com opiniões conflitantes; a batalha de argumentos nos tribunais, eventualmente com direito a deliberação por júri popular; o conflito de ideias e propostas na economia, com impacto direto na vida do cidadão. Um tema quente do momento é a Reforma da Previdência. Os debates geralmente começam com a tentativa de definição da necessidade – ou não – de uma reforma de fato, com base na presença ou ausência de déficit nas contas. Nesse ponto não há acordo entre o governo, que afirma categoricamente haver um déficit monstruoso e que algo precisa ser feito “para ontem”, e a ANFIP (Associação Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil) e Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), que defendem a existência de um superávit na previdência, argumentando que o governo não faz o cálculo como deveria (e não usa o dinheiro como deveria). Quem tem razão?

Há quem recuse terminantemente qualquer menção a proposta nesse campo, e há quem acredite que deva ocorrer sim alguma mudança, mesmo que não nos moldes apresentados pelo governo. A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) se pronunciou contra a reforma, pelo menos da maneira como ela está sendo sugerida. Um dos pontos levantados é que a proposta não contempla as desigualdades reais, buscando aplicar a todos as mesmas regras. De qualquer modo, as discussões estão acontecendo. Mas os cidadãos estão participando dela? No regime democrático, o intuito é que as pessoas estejam por dentro do que se passa no país, assim como sabem (ou deveriam saber) o que ocorre no bairro onde moram, para minimamente poderem tomar decisões ou ao menos dizer que não conseguem decidir. Se não for assim, os representantes do povo estarão representando interesses diversos da “voz do povo”. Numa época em que a população está farta da politicagem em meio aos escândalos de corrupção, é até compreensível a postura daqueles que não querem discutir absolutamente nada que venha do governo, pois não enxergam moral nenhuma nos políticos e desconfiam de suas intenções e seus cronogramas. Porém, se não houver debates, o que haverá?


Um grande problema é que, quando há discussões entre populares, mesmo entre amigos e colegas, temos tido a infelicidade de ver muita briga e separação; quanto mais quando se trata de lidar com quem é “diferente”. Continuando assim, de pouco adianta checar e analisar as informações, pois as opiniões já estão formadas, os ânimos acesos e os preconceitos, fortalecidos. A conversa de Jesus com o doutor da lei culmina na parábola do bom samaritano, bastante conhecida. O doutor pergunta ao mestre: “Quem é meu próximo? ”, em sequência à proclamação do mandamento “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”. Então Jesus conta a parábola. Aqui fica, além das duas perguntas do título, também esta: quem é meu próximo?

quarta-feira, 15 de março de 2017

O português que todo mundo fala e o gramatiquês

Parece que existem duas línguas no Brasil: aquela que as pessoas falam ou escrevem nas mídias sociais e a que é ensinada nas salas de aula pelos professores de português. O fenômeno não ocorre somente com o nosso idioma.

Existe um português mais formal, cultivado pelos letrados, ensinado nos compêndios, exigido nas provas de vestibulares e concursos. Quem o pratica, procura obedecer aos preceitos da gramática dita tradicional e olha com desdém e ironia os desvios daqueles que lhe ignoram as regras. Tal linguagem predomina, por exemplo, na escrita dos livros, de textos acadêmicos, na correspondência oficial e comercial, na fala mais cerimoniosa de certos ambientes. Alguns de seus cultores mais radicais chegam a considerá-la a única forma aceitável de comunicação, assumindo atitudes de policiamento e de censura diante da linguagem espontânea e coloquial do povão. Ao usuário caberia falar como se escreve, seguindo, sem atenuantes, os ditames de uma gramática fixa e imutável.

No outro extremo, existem os que afirmam que o idioma é produto do povo, não um sistema de regras e princípios ditados pelos filólogos e gramáticos. O povo é o único soberano mestre da linguagem: suas sentenças são sem apelação e o uso tudo justifica.

Sob essa dicotomia, subsiste um sistema ideológico bem visível e o primado de uma forma de linguagem sobre outra revela, talvez, um determinado posicionamento filosófico e político. Uma pessoa de tendência conservadora, de ideias tradicionais, que acentuadamente valoriza o argumento de autoridade tende a aceitar unicamente a língua culta com um único padrão pelo qual se devem pautar todas as manifestações da linguagem em qualquer situação de comunicação. Ao contrário, aquele de princípios mais liberais, sensível às mudanças de comportamento em face das transformações que se operam na sociedade, procura, por sua vez, minimizar a importância da gramática e dos gramáticos como norteadores do bem falar e do escrever.

Matutando sobre isso, há de se reconhecer a existência e a necessidade do uso da língua, dita culta e, também, da língua mais espontânea e popular. Querer regê-las dentro do mesmo código seria negar-lhes as particularidades e suas funções específicas. A língua falada, por exemplo, jamais poderá ser idêntica à língua escrita e esta, por sua vez, não obstante o esforço do escritor, sempre será diferente, pois dispõe múltiplos e variados recursos intransponíveis para a grafia.

A gramática, ensinada na escola, com seus princípios e normas, ocupa-se preferencialmente com a língua culta de menos uso que a língua falada pelo povo. Escrever, no entanto, de acordo com seus preceitos é justificável e exigido em determinadas situações de comunicação.

A noção de erro, em consequência, não é a mesma nas duas formas de comunicação. Aquilo que não é permitido quando se redige em situações mais formais pode ser justificado quando se usa a língua coloquial e espontânea na publicidade e nos blogs, por exemplo.

Querer a uniformização da variante culta e da popular seria pura utopia. Pretender, por outro lado, abolir o ensino da gramática na escola seria uma irresponsabilidade sem tamanho. A ela compete a importante missão de registrar os fatos da língua padrão, que se superpõe aos falares regionais, bem como estabelecer os preceitos não só do como se escreve (língua escrita), mas também de como se fala (língua falada). A demora dos registros dos fatos linguísticos, já amplamente empregados e assimilados no idioma, acentua não raro o descompasso entre o português da sala de aula e o português do povo.

A língua culta e a língua popular são ramos do mesmo tronco que mutuamente se completam e se enriquecem. Há espaço para as duas variantes. A escolha de cada uma delas vai depender da situação de comunicação em que se encontra o usuário da língua.

Tais diferenças não empobrecem o idioma, mas, pelo contrário, revelam a sua multiplicidade e riqueza.

sábado, 11 de março de 2017

Neoliberalismo: a negação da negação

A base ideológica da filosofia neoliberal consiste numa aforismo interessantíssimo, já destacado por pensadores do calibre de Slavoj Žižek e Zygmunt Bauman: é uma ideologia que se apresenta como não ideológica. Essa forma ideológica invade todos os espaços da vida comum, baseada (i) num discurso vazio de conteúdo, com frases de efeito e (ii) lideranças sem alternativas para o mundo como ele se apresenta. 

No que respeita ao primeiro item sob análise, é comum encontrarmos textos espalhados por pseudointelectuais que nos indicam, com uma profundidade teórica assustadora, que "a liberdade liberta", a nos convencer que somos livres, a despeito de todos os fatores que nos indicam que essa liberdade, num mundo de consumo, não é para todos. Em segundo lugar, as propostas de eliminação do Estado, das instituições burocráticas e da superestrutura que vigora no mundo ocidental (variando de acordo com a cultura de cada sociedade, como é óbvia), é necessária para pôr fim à burocracia que atravanca o progresso, aos custos que nos impedem de consumir mais, e à regulamentação que impede que o mercado avance em todos os aspectos da vida humana - mesmo que isso nos indique um paulatino processo de reificação (coisificação da condição humana).

Esse domínio ideológico encontra campo fértil em território brasileiro, basicamente por duas razões: falta de estrutura educacional, que tenha preparado a população para os debates que envolvem a política e a economia - como componentes de uma vida cidadã-, e a força de grandes grupos econômicos que têm interesse em desregulamentar diversas conquistas sociais já sedimentadas no ordenamento jurídico brasileiro (por via dos tratados internacionais que ensejaram o surgimento, por exemplo, dos direitos fundamentais individuais e coletivos na Constituição Federal de 1988).

Diante disso, a liderança politizada para um pensamento progressista fica restrita à classe média que, obviamente, luta para garantir a continuidade de seus direitos (ou privilégios, visto que eles não se estendem ou não são gozados com a mesma intensidade pela classe subalterna e miserável do País), que não costuma dialogar com os desprovidos. De fato, é preciso reconhecer que o clamor por justiça social e por bem-estar fica restrito às rodas de conversas universitárias e aos pequenos grupos de pressão organizados que, ocupando partidos políticos, sindicatos ou outras formas de grêmios sociais, como as Organizações Não-Governamentais, fazem seu papel de contra-posição ao atual modelo hegemônico que domina os meios de comunicação de massa.

Portanto, resta perceber que "a negação da negação" é nada mais do que uma afirmação: o pensamento neoliberal, que desregula a economia, os direitos sociais, a proteção do meio ambiente e tantas outras áreas do interesse coletivo, é um tipo discursivo individualista e ensimesmado, fechado para a discussão por uma ausência ou lacuna: não há uma contraponto que sirva de alternativa, de inovação ao "fim da História" decretado por Fukuyama. A grande ironia é que, como "negação da negação", ele reafirma tão-somente o velho conflito de interesses e a luta de classes, num modelo defasado que crê na expansão ilimitada dos recursos e na exploração da força de trabalho - enquanto houver meio ambiente social e natural. Enquanto houver...

quarta-feira, 8 de março de 2017

Do que precisamos para começar a tratar este país como nosso?

Minha curiosidade por seres humanos parte das células, passa pelos órgãos, percorre traços e formas, discurso, linguagem; vai até o cérebro. Mentes humanas não cabem em neurônios. Gostemos ou não, somos sistemas abertos. Inevitável que meu fascínio por funções e disfunções se estendesse às famílias, ao meio. Não que eu tenha compreendido ou abandonado qualquer uma dessas instâncias, mas, ultimamente, é o nosso país que muito me intriga. Sondo as origens e entrevejo um futuro em que boa parte dos brasileiros parece desacreditar. Pudera! Nosso grau de identidade coletiva é deveras instável. Basta uma boa surra no futebol para rasgarmos a camisa. É “salve-se quem puder” dentro e fora de estádios. Para dirimir ainda mais o desejo de identificação, inúmeros têm sido os ensejos de nos envergonharmos de nossa nação. Adentrando, ainda que à revelia, a irremediável era da transparência, pressentimos: a temporada de escândalos está em seus primórdios. Podemos fugir para as colinas, para lá do muro de Trump, para a “zoropa”, para o Brasil “melhorado” cheio de cangurus ou para qualquer recanto que julguemos merecedores de nós, seres destinados a um país inteiramente distinto do que de fato dispomos. São muitos os refúgios e uma é pergunta que me parece crucial: do que precisamos para começar a tratar este país como nosso? Segundo os economistas Alberto Alesina e Edward Glaeser, em países com maior diversidade étnica, há menos disposição para redistribuir renda e contribuir com o estado de bem-estar social. Já países de pessoas etnicamente próximas funcionam como uma grande família, em que a colaboração se dá com naturalidade. O artigo me fez pensar que a falta de identificação coletiva no Brasil se deve à nossa heterogeneidade. Já sabemos que o Neguinho da Beija-flor é geneticamente mais europeu do que africano, mas as aparências teimam em nos inebriar. Em uma única semana, dois casos de violência ganharam as mídias em Fortaleza. Um corredor foi brutalmente agredido por assaltantes na avenida Beira-mar e sofreu traumatismo craniano. Em um bairro bem afastado da zona nobre, uma travesti foi espancada até a morte por pessoas que simplesmente não a aceitavam como tal. Qual dos casos ganhou repercussão no grupo de whatsapp da minha turma de faculdade? Longe de comparar tragédias ou minimizar justificadas indignações, meu questionamento apenas destaca o nosso maior pesar pelos mais semelhantes. E o Brasil, convenhamos, não é um país de semelhantes. Somos diferentes, diversos, distintos. Se adversidade é voltar-se contra, diversidade é voltar-se em diferentes direções. Num mundo cada vez mais adverso, que bela surpresa se a reverência indígena à natureza, a herança cultural africana e a tolerância mourisca portuguesa ainda nos salvarem! Podemos, quem sabe, passar a enxergar na pluralidade o caminho para a construção de um país singular. O desafio continua o de amar o próximo; o semelhante a gente tira de letra.


*Além do artigo de Alesina e Glaeser, muito recomendo Tópicos Utópicos, de Eduardo Gianetti.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Laico, pero no mucho


Somos uma nação de formação histórica católica que, através da bestialidade contra as crenças de povos não europeus, aniquilou culturas e religiões indígenas e africanas, com o objetivo de impor a esses povos os hábitos e costumes europeus. No tocante às religiões de matriz africana, encontramos ainda hoje uma crescente intolerância não mais ordenada pelo Estado, mas por adeptos de religiões cristãs.
Durante a segunda metade do século XIX, o catolicismo no Brasil passou por um processo de expansão e consolidação, associando-se de forma rígida à cultura e identidade brasileira. A relação que o brasileiro tem com a religião é um reflexo das nossas contradições como sociedade, onde há um gigantesco abismo entre o que é proferido e o que é executado, pois a religiosidade brasileira é plural, diversa, ampla, sincrética, heterogênea e plástica.
Nas últimas décadas, verificamos no Brasil um intenso crescimento do número de evangélicos à custa de um lento, mas constante, declínio católico. Segundo o instituto Datafolha, o número chega a 29%, sete pontos percentuais a mais do que o Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou. A tendência de expansão desse segmento religioso reflete um crescimento da influência dos evangélicos nas transformações culturais e políticas do Brasil recente, como observamos nas ações de parlamentares evangélicos em relação aos direitos das mulheres e de LGBTs. Atualmente, no Congresso, há a maior bancada evangélica da história, com 75 deputados federais e três senadores evangélicos. Vimos recentemente, durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma, uma coesão da bancada evangélica que, através de discursos ignóbeis e pífios em muitos momentos dedicados a “Deus”, apoiaram maciçamente o impedimento. Esse mesmo grupo político-religioso se alinha à dita direita do espectro político para defender pautas conservadoras e preconceituosas (homofobia, machismo e racismo) no campo dos costumes, políticas sociais e econômicas.
Um país secular ou laico é um conceito onde o poder do Estado é oficialmente neutro no campo religioso, não apoiando ou discriminando nenhuma religião ou a ausência dela, opção que representa atualmente, segundo pesquisa Datafolha realizada em dezembro de 2016, 1% da população brasileira.
Um Estado laico não permite a interferência de correntes religiosas em matérias sociopolíticas e culturais, o que é o oposto ao que se observa atualmente no Brasil. Nos últimos anos, a bancada evangélica vem apresentando projetos extremamente retrógrados, como o projeto de lei do aborto, que cria empecilhos para o direito constitucional das mulheres vítimas de violência sexual realizarem aborto na rede pública de saúde; ou o projeto de lei da redução da maioridade penal, aprovado na Câmara e que aguarda análise do Senado, que teve a tolice de usar passagens bíblicas para justificar a redução. Outra aberração apresentada é o Estatuto da Família que determina que família é constituída apenas pela união entre homem e mulher.
Outro fato que causa estranheza no seu antagonismo ao Estado laico é o uso de símbolos religiosos, exclusivamente cristãos, em repartições públicas. Esses setores são um bem público que pertencem a todos os cidadãos, o que caracteriza no mínimo um desrespeito ao princípio da isonomia. Por que usar apenas uma cruz cristã? Poderíamos adicionar um orixá do Candomblé, ou a lua crescente com estrela do Islamismo, ou, talvez, um pentagrama Wicca, afinal os símbolos de todas religiões têm para os seus seguidores o mesmo valor e a mesma importância que tem a cruz para os Cristãos.
Fomos cunhados como sociedade no molde pequeno-burguês cristão. A Igreja católica foi a matrix que construiu os valores, a moral, e a ética do corpo social. Felizmente, nas últimas décadas, tivemos importantes avanços na sociedade brasileira que começaram a partir do movimento feminista que surgiu no Brasil nos anos 70, com decisivas contribuições no processo de democratização do Estado, além de facultar à mulher autonomia sobre seu corpo pelo exercício prazeroso da sexualidade, podendo decidir sobre quando ter ou não filhos. Em contrapartida, nos últimos anos, estamos experimentando uma nostálgica tendência “retrô” por períodos medievais, que nos suscita uma grande apreensão em relação ao que está por vir. Há atualmente no Brasil um forte grupo político-religioso, com objetivos e propostas bem definidas, que a cada dia ganha mais adeptos. O fenômeno é fruto de uma gigantesca crise econômica e política que o País atravessa e que a cada eleição adquire mais poder político.
Na discussão pública não pode haver pensamento religioso, assim como opiniões e visões pessoais não podem servir de parâmetro para propósitos que envolvam toda uma sociedade. Tenho uma visão muito particular sobre religião, o que envolve o fato de eu ser ateu desde os dez anos. Aprendi desde cedo que religião não define caráter, valores ou dignidade e que não existe religião boa, mas sim pessoas boas que às vezes têm religião. 

Particularmente, não me incomodo com políticos com crenças religiosas, porém sinto repugnância em saber que minha vida e minhas escolhas podem ser influenciadas direta ou indiretamente por leis baseadas em “princípios” religiosos. Permitir algo dessa natureza seria um retrocesso cultural, político e intelectual sem precedentes na história do País.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Mais empatia, por favor

Muito me agrada compreender e colocar em prática a empatia. Longe de ser aquele papo clichê que anseia, sem esforço algum, se tornar alguém melhor ou apenas introduzir a expressão de forma corriqueira em meu vocabulário. Vai além. 

Costumo dizer que a empatia nos confunde muitas vezes em acharmos que praticá-la é apenas “simpatizar” por lutas diferentes das nossas ou “ter pena” de certo alguém e então o ajudar. Acredite, o caminho é outro.... Se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo suas perspectivas/sentimentos e usando essa compreensão para guiar as próprias ações tem o poder de promover profundas mudanças sociais quanto de transformar nossas vidas. É o nascimento de uma revolução nas relações humanas. 

Sou uma admiradora do Direito Constitucional, sendo assim, reflito bastante sobre nossa Constituição e, automaticamente, entro no viés de como é positiva a adesão dos direitos humanos na última Carta que nos segue até agora. Mas, como bem sabemos, a nossa Legislação está muito além da realidade, faltando compatibilidade necessária entre seu aspecto formal e o que existe de fato.

Então, sem grandes esforços, penso na poderosa ligação em que o uso da empatia se faz necessária para enfrentarmos as crises e ultrapassar todos esses problemas de política, pobreza, intolerância religiosa e até mesmo essas divisões sociais que o abuso dos direitos humanos nos traz.

Também penso em como a ideia (e de certa forma, quase que uma teoria aplicada por alguns autores) de que as emoções ficam de fora de uma decisão judicial, por exemplo. Como é definido um bom juiz, então? Um magistrado com a finalidade de obter a melhor solução, a qual deve satisfazer não apenas as partes envolvidas, mas também à própria sociedade. Mas será que apenas com o conhecimento técnico, vivência, capacidade de observação e sua experiência ele alcançaria? Eu não tenho dúvidas de que uma profunda postura empática, face aos problemas que lhes são apresentados, tem total importância e rumo para as suas decisões.

E, se a finalidade de uma ação judicial é de atender a uma necessidade e resolver uma situação de disputa, a empatia se encaixa perfeitamente para aliviar o mal-estar ou evitar mais conflitos, certo? Os advogados que os digam.

Como estudante de Direito, não fugi do rumo que o texto tomou e segui nos exemplos básicos dentro da área jurídica concluindo como a sua aplicação se desenvolve de forma discreta e como pode ser ainda mais explorada.

Mas, esse texto ultrapassa a intenção de citar algumas conclusões ou exemplos da empatia no meu querido Direito. Minhas palavras aqui ultrapassam esta área e tentam demonstrar como é simples e bonita a possibilidade de melhorar a nossa vida, pessoal ou profissional, através de um sentimento que já nasce com a gente. Ter equilíbrio, ser um ser humano altruísta e proativo não é fácil, requer paciência, que requer a arte de colocar em prática toda a sabedoria adocicada pela sutileza da espera.

Aos 18 anos conheci o livro “Uma ética para o novo milênio” do Dalai Lama em que também tratava sobre a empatia e dava um toque especial ao apresentá-la como um bom remédio para a ansiedade a qual se faz presente tão intensamente em nós.

“As coisas e acontecimentos só ocorrem como resultado de inumeráveis causas e condições. Nossa tendência é nos concentrarmos exclusivamente em um ou dois aspectos do que está acontecendo. Ao agir assim, inevitavelmente nos limitamos a procurar meios para superar apenas aqueles aspectos. O problema é que, quando não os encontramos, corremos o risco de cair em total desânimo e desorientação. O primeiro passo para superar a ansiedade é, então, desenvolver uma perspectiva adequada da situação.

Podemos fazer isso de diversas maneiras diferentes. Uma das mais eficazes é procurar desviar o foco da atenção de nós para os outros (...).

Bem, de forma saudável esse trecho me inspira e senti a necessidade de compartilhar. Quando desejo e peço mudanças eu também as ofereço, da minha forma, mas ofereço, e a minha escolha é a empatia. Pratico de forma saudável e motivadora. 


Não perde tempo e também escolhe a tua, quem sabe um grande segredo coletivo não está aí...

sábado, 4 de fevereiro de 2017

“Pátria Madrasta Vil”: uma revolução silenciosa em curso?

Descobri recentemente um texto intitulado “Pátria Madrasta Vil”. A composição, de autoria de Clarice Zeitel Vianna Silva, na época estudante de direito na UFRJ, venceu, junto com mais 99 textos, um concurso nacional organizado pelo jornal Folha Dirigida e UNESCO Brasil, envolvendo 50.000 candidatos. O ano era 2008. A UNESCO patrocinou a iniciativa como meio de apoio à divulgação dos oito objetivos para o desenvolvimento do Milênio aprovados pelas Nações Unidas em 2000 por 189 países, entre eles o Brasil, a serem trabalhados até o ano 2015. Dentre os objetivos, constavam a eliminação da pobreza e combate à desigualdade, temas centrais do referido concurso. Os 100 textos foram reunidos e publicados em uma coletânea disponível na biblioteca virtual da UNESCO. Para os interessados, o livro é acessível no seguinte endereço: http://unesdoc.unesco.org/images/0015/001576/157625m.pdf

O texto-poema de Clarice acabou naquela época ganhando destaque nacional. A autora foi convidada em diversos eventos. O conteúdo provocador e ácido incendiou as redes sociais, seja para ataca-la ou defende-la, alvo de críticas e elogios, tanto na forma como no conteúdo do texto. Por ser extenso, só reproduzirei aqui os primeiros versos e comentarei outros trechos. Reitero portanto meu convite aos interessados para acessar o retro mencionado link e consultar a versão integral.

Assim começa o poema intitulado “Pátria Madrasta Vil”:


“Onde já se viu tanto excesso de falta?Abundância de inexistência...Exagero de escassez...Contraditórios?Então aí está!O novo nome do nosso país!Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.”

Partindo de um trecho do hino nacional, “dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada, Brasil”, Clarice elabora uma extensa argumentação rejeitando a parábola ora proposta de “mãe gentil” para a pátria Brasil. Em subsequentes versos, sublinha contradições, enganações, hipocrisias e ilusões vividas por sucessivas gerações de cidadãos “que não aprenderam a ser cidadão” (sic).

No decorrer de sua aclamação, acaba enaltecendo a necessidade por mudanças estruturais, revolucionárias, que “quebrem esse sistema-esquema social montado” através de mudanças que, de fato, transformem e não simplesmente reproduzam os referido esquema sob novas máscaras.

Ela reconhece, no entanto, que para tal mudança ocorrer, falta um fator fundamental que permita o alcance da igualdade na sociedade brasileira: “nossa participação efetiva”. Finaliza afirmando que somente uma revolução estrutural “de dentro para fora e que não exclua, nada nem ninguém de seus efeitos” conseguirá acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil, pedindo portanto um posicionamento individual perante o mundo, perante o coletivo, que ela resume na expressão “cada um por todos”.

Não é minha intenção neste artigo julgar ou revisitar o debate da época. Como já disse, muito já foi escrito a respeito em trocas extensivas de opiniões e contra afirmações para as quais pouco teria de interessante a somar. Quase uma década se passou desde então. Os objetivos onusianos do milênio estabelecidos para 2015 foram reconduzidos em essência, mesmo que sob renovadas luzes, na chamada agenda “pós 2015”. O grito de Clarice quanto à problemática estrutural brasileira, parece-me, ganhou novo destaque com os acontecimentos destes últimos anos, independentemente dos julgamentos de valor sobre a veracidade ou coerência das afirmações por ela listadas.

O fato é que a leitura do texto me remeteu aos ensinamentos de um professor de filosofia chileno, Luiz Razeto, que veio compartilhar visões da academia sobre os contextos e condições de criação de uma nova civilização, durante conferência, ano passado, em um congresso sobre cidadania planetária em Fortaleza – CE.

Não pude deixar de reparar que certas das afirmações de Clarice ecoavam no discurso do professor. Para resumir, irei manter-me no eixo em torno do qual este desenvolveu sua apresentação: a capacidade de inclusão como fator fundamental a partir do qual pode-se avaliar a sobrevivência de uma civilização ou nascimento, em meio a muitas turbulências, de uma nova civilização enquanto a antiga se desintegra, seja gradualmente, seja abruptamente, em processo caótico de transição até que os novos paradigmas consigam sobrepor-se aos antigos.

O professor enfatizou que, enquanto a deterioração acontece essencialmente à nível macrossocial nas grandes e condicionadas estruturas políticas, econômicas e culturais que começam a não mais conseguir cumprir com suas missões, a nova civilização só pode começar a nível microssocial, demandando participação cidadã ativa e, claro, bastante tempo, através de iniciativas particulares e concretas.

Clarice, em seu poema, lançou um grito um tanto pessimista sobre a situação da sociedade Brasileira, lamentando a ausência do cidadão para que transformações consigam nascer e se desenvolver. Dez anos depois, à luz dos eventos mais recentes e observações pessoais, portanto, sujeitas a clara subjetividade, devo confessar certo otimismo apesar dos obstáculos e situações enfrentados nas grandes estruturas da sociedade.

Vejo cidadãos mais ativos, cobrando posturas, quaisquer que sejam, em debate caloroso e saudável sobre tais estruturas. Mas também vejo inúmeras iniciativas concretas de ajuda ao próximo. Brasileiros estão cada vez mais engajados em ajudar em associações, ONGs e outras entidades, formais ou informais para auxiliar os necessitados. Á nível mais pessoal ainda, vejo mudanças em perfis de consumo, uma consciência mais esclarecida surgindo sobre a necessidade do respeito à natureza. Virou rotina o uso dos espaços públicos e de trânsito na cidade, para esporte e passeios nos fins de semana, envolvendo família e amigos, espaços que até pouco tempo não eram usados para tais.

Seguindo a raciocínio proposto pelo Professor Razeto, uma transformação estaria de fato ocorrendo à nível microssocial, talvez ainda tímida, minoritária mas ganhando novos adeptos em ritmo acelerado pelo que consigo testemunhar. Em menos de 10 anos, em meio à uma crise sistêmica, saímos de uma situação de lamentação e críticas ásperas para uma nova era de ação local engajada, servindo de exemplo multiplicador. Como mencionado em artigo escrito por uma das coautoras do Matutando o Brasil, “um novo Brasil está germinando”. Sim, Clarice, a sua sonhada revolução parece já estar em curso, talvez ainda silenciosa, mas bem real. Não há mais lugar para exacerbado pessimismo. Por mais que muito haja a ser feito e enfrentado, a roda brasileira da fortuna começou a girar, incentivando participação cidadã ativa. Paremos de focar o que não funciona e elejamos a ação local, aquela bem ao nosso alcance como método eficaz de verdadeira e testemunhável transformação. São estas ações que renovam energias e esperanças favorecendo a construção de um país e, por consequência, de um mundo menos pobre e desigual, fundamentado na prática da inclusão e do respeito a si mesmo, ao próximo e à natureza.