quarta-feira, 22 de junho de 2016

Toque de Perspectivas

               
         
      Ao longo de toda a vida, constantemente nos são designados – e também escolhemos – diversos papéis e atribuições, e nos encaixamos em diferentes categorias. Filhos, estudantes, colegas, torcedores de um time esportivo, profissionais, cônjuges, vizinhos, filiados a um partido político, pais, amigos, aposentados, seguidores de uma religião ou de uma corrente filosófica, fãs, ídolos, e por aí vai. Alguns desses papéis são permanentes, outros mudam de vez em quando, e ainda existem os que são trocados a todo instante. Gostamos e temos necessidade de categorizar as coisas e as pessoas conforme suas características, seja para unir ou para separar.
Às vezes estamos tão acostumados a pensar de determinada maneira que temos dificuldade em imaginar como seria estar em outra pele, em reconhecer as opiniões alheias. A alteridade pode parecer demasiado estranha, até perigosa. Com frequência ficamos engessados numa perspectiva qualquer.
Uma parábola indiana relativamente famosa, com várias versões semelhantes, fala de um grupo de cegos que entram em contato com um elefante pela primeira vez, sendo que cada pessoa toca apenas em uma parte do animal, comparando suas impressões uns com os outros depois. Assim, o sujeito que pega na tromba do elefante diz que o bicho parece uma cobra; o que toca na perna garante que está diante de um pilar; e o que alcança a orelha comenta que o animal se trata de algo como um grande leque. Não há consenso entre eles, e mal sabem que sua compreensão é incompleta. Embora cada um perceba uma característica verdadeira do paquiderme, nenhum consegue abarcar o todo. Pode-se, então, inferir que não se deve julgar um objeto, pessoa ou situação apenas com base em partes e fragmentos, e que algumas verdades são bastante relativas.
Outra curiosidade vinda do oriente encontra-se no modo como a língua hebraica trata a perspectiva do passado e do futuro. Enquanto nas culturas ocidentais geralmente se considera que o passado está atrás de nós e o futuro vem vindo à nossa frente, no hebraico a palavra correspondente a “passado” também significa “à frente” (ou seja, pode-se contemplar o que passou), e o termo correspondente a “futuro” também pode significar “atrás” (pois não se consegue ver, é desconhecido). Esse olhar diferente nos convida a prestar bastante atenção à nossa história.
Deixando um pouco as elucubrações sobre espaços e tempos, passemos a abordar mais diretamente o fértil campo das relações humanas.  É interessante como, por vezes, a mudança de perspectiva, ao invés de favorecer alterações de comportamento, perpetua situações cíclicas perniciosas. Temos notícias de escravos que, após libertos, tornaram-se senhores escravagistas; indivíduos pobres que, depois de enriquecerem, passaram a humilhar outros sadicamente; cidadãos comuns que, uma vez revestidos de autoridade, começaram a cometer abusos de poder. Muitos dos que alcançam posições mais cômodas parecem esquecer que já foram sofredores (ou, quem sabe, justamente por lembrarem até demais, sem a devida elaboração, é que se tornam agentes de mazelas, fazendo jus àquela brincadeira do “desconta lá”). É de admirar a postura do condutor de automóvel que frequentemente reclama dos pedestres, porém, quando ele mesmo está transitando a pé, enche a boca para amaldiçoar os motoristas.
Nesta época de nervos à flor da pele, há quem se aferre demais a uma parte do elefante e há quem nem suporte tocá-lo. Parece bastante difícil exercitar a tolerância com outras perspectivas, mesmo quando o outro nos tem muito a ensinar. Como dizia o padre Antônio Vieira, “o verdadeiro saber é de saber reconhecer a verdade, ainda que seja filha de outros olhos ou de outro entendimento, e não se cegar com o próprio”.

domingo, 12 de junho de 2016

Política e emoções: a insustentável tentação da manipulação

Fonte: http://www.crossculture.com/latest-news/the-lewis-model-dimensions-of-behaviour/

(Muito já foi escrito, falado e gritado sobre os transtornos recentes vividos no seio da sociedade brasileira. As mídias e redes sociais andam repletas de informações, opiniões, análises, acusações e advertências. O que eu, um estrangeiro, mesmo sendo um convidado de longa data naquela casa gigante pela própria natureza, poderia comentar que já não tenha sido amplamente apresentado, pesquisado e comparado? Antes de tudo, teria eu esse direito? E, ainda que concedido o direito de opinar, seriam minhas impressões e percepções, de alguma forma, úteis? Não sei. Diante tantas incertezas, devo confessar meu traque ao estrear nesse espaço. Não há pretensão em cobrir o assunto anunciado no título, longe disso. Trata-se de expor algumas considerações pessoais, portanto, parciais e sujeitas à críticas. O uso equivocado da emoção em política constitui o foco do presente texto, sob o prisma de um modelo acadêmico proposto por Lewis.)

Segundo um tradicional adágio brasileiro, “futebol, religião e política não se discutem”. A sabedoria popular teria portanto identificado uma característica comum àquelas atividades, sujeitas a posicionamentos que pouco incentivariam um diálogo aberto e racional. O risco de desentendimento sem perspectiva razoável de se chegar a um resultado aceitável para as partes, teria levado a sociedade brasileira a estabelecer uma lista informal de assuntos não desejáveis em rodas de conversas sociais. Pelo menos assim foi meu entendimento a respeito do referido adágio quando cheguei por aqui.
Se olharmos padrões de comportamento em relacionamentos, sabemos, mesmo intuitivamente, que duas grandes dimensões costumam reger nossa conduta em sociedade, a emoção e a razão. As dinâmicas de funcionamento daquelas duas dimensões são ao mesmo tempo distintas e intimamente ligadas, uma podendo desencadear pensamentos, fenômenos ou sensações na outra, em processo constante de retroalimentação, que pouco controlamos. Somos, em regra geral, reféns de nós mesmos. Mas aquelas dimensões são diferentes em seus impactos. Farei aqui considerações pessoais nada científicas, resultantes de observações, leituras e conversas. A emoção invade o corpo e consegue teleguiar nossos reflexos comportamentais em milissegundos. Tanta velocidade nos incapacita, muitas vezes, de usar com eficácia a dimensão racional para conter determinados padrões emocionais que gostaríamos de mudar, ou, ao menos, controlar. Vivemos assim, em meio a uma dança incessante com passos indo do emocional para o racional e vice versa. O racional gostaria de controlar e pode até ter a ilusão de que controla. Mas o emocional possui uma força impactante tão repentina e invasora, que este, regularmente, vem nos lembrar quem de fato manda naquela birosca chamada corpo.
Li recentemente relatos de estudos na área de psicologia indicando que agimos de forma inconsciente em pelo menos 90% de nosso tempo de vigília, ou seja, quando acordados. Pior, aquela inconsciência é tanto da dimensão racional, em suas várias obsessões incluindo posse e controle, quanto da dimensão emocional, em sua capacidade para nos desequilibrar, seja em direção à euforia, seja em direção aos vales profundos da insegurança e frustração. Resumindo, seríamos máquinas condicionadas por desejos e pensamentos em constante movimento, entrando frequentemente em contradição, deixando-nos vulneráveis a qualquer evento que poderá desencadear efeitos desgovernados nas duas retro citadas dimensões.
Cada um possui uma formatação única nas condições de convivência destas duas vertentes de nossa personalidade. Mas há também uma dimensão coletiva quanto ao padrão de formatação. O adágio serve aqui de testemunha. Há até estudos a respeito. Um deles foi desenvolvido por Richard Lewis nos anos 90 sobre interferências culturais (cross culture) em negociações internacionais. Após anos de pesquisa de campo nos cinco continentes, Lewis elaborou três grandes categorias de comportamento que deveriam permitir classificar sociedades em determinados padrões. A foto encabeçando o texto oferece uma visualização, desenvolvida pelo próprio Lewis, da repartição dos países entre aqueles padrões. As três categorias são o “linear-ativo”, o “multi-ativo” e o “reativo”. Muitas sociedades demonstram aspectos em graus diferenciados de duas destas categorias, conforme vemos na foto. Mas algumas são avaliadas como essencialmente pertencentes a uma única categoria. O Brasil está no seleto time dos campeões mundiais na categoria denominada por ele de “multi-ativos”. Muito resumidamente, as principais características de tais sociedades dizem respeito ao uso intensivo, em suas relações, quaisquer que sejam, da emoção, retórica e linguagem corporal. Tenderiam à dar importância à religião e laços familiares, demonstrariam compaixão e sensibilidade comunitária, mas também certa volatilidade e grau de desconforto com autoridade e disciplina. Claramente, aquelas colocações são muito genéricas, tendências identificadas e postas à prova da generalização, portanto sujeitas a um reducionismo caricatural.
Feitas essas considerações, voltemos ao nosso adágio. Ao que tudo indica, a ciência corroborou o que a sabedoria popular já tinha apontado. Em um país onde a emoção tende a reinar no estabelecimento dos padrões de relacionamento, alguns assuntos passam a ser para lá de sensíveis. Ainda assim, não demorei muito para entender que aquele adágio, na verdade, só se aplicava mesmo à política. Futebol era assunto incontornável de conversas de mesa, apesar da recomendação popular. Até religião entrava no rol com certa frequência. Os dois temas envolvem valores absolutos, típicos da dimensão emocional, o “tudo ou nada”! No futebol, o espírito de time, a torcida, forja fortes e assumidamente irracionais padrões comportamentais do tipo “nós contra eles”, motivos de orgulho ou desespero em um passeio viciante de montanha russa a cada campeonato. Na religião, os valores absolutos pregados envolvem uma dimensão que eu não tinha até o momento comentado, propositalmente, a dimensão espiritual. Acredito que aquela dimensão seja, em sua essência, autônoma em relação às outras duas. Porque? Minha percepção é que a dimensão espiritual envolve conscientização. Ao desenvolver-se, “descondiciona” (perdoem minha liberdade com a língua portuguesa) padrões mentais e emocionais, permitindo trabalhar os 90% de inconsciência apontados no estudo de psicologia retro citado. O caminho para desenvolvimento da consciência só funciona, no meu ver, saindo do espiritual adentrando e descontruindo padrões das dimensões mentais e emocionais. Querer influenciar o espiritual a partir do mental ou emocional parece-me um tanto equivocado. Assim, esquemas religiosos que, em nome do indescritível, promovem supostos ensinamentos, movidos por interesses das dimensões mentais e emocionais que nada têm a ver com a dimensão espiritual, distorcem ou até destroem qualquer processo saudável e sustentável de conscientização. Interessante notar que, apesar do conteúdo fortemente simbólico, a religião ainda assim conseguia-se gerar conversas civilizadas em rodas de amigos. Valores, por mais absolutos que sejam, conseguiam ser relativizados e concessões aceitas em nome do bem estar coletivo. Os acontecimentos recentes apontam para uma séria piora do quadro. O exercício racional da tolerância ficou prejudicado com a crescente exacerbação de uma dimensão emocional absolutista, manifestada em posturas mentais de controle e subjugação. A sugestiva batalha do bem contra o mal está sendo levada ao extremo do tudo ou nada.
Mas, e a política? Porque esse relativo silêncio durante tantos anos? Haveria algum tabu que eu desconhecia? Era simples desinteresse pelo assunto? Aquilo sempre me intrigou, sem, no entanto ter conseguido desvendar totalmente aquele mistério. Entendo que aquelas perguntas eram fruto da vivência de um único indivíduo. Há, certamente, entendimento distorcido pela parcialidade da experiência pessoal. Ainda assim, política dizendo respeito à organização das condições de convivência entre pessoas diferentes, em nome do bem estar coletivo, parecia-me que aquele assunto deveria surgir com certa frequência. Espera-se, na minha concepção, debate popular, forma saudável de vigilância dos atos perpetrados pelos representantes formais. Ao silenciar, dá-se espaço para que políticos, movidos por interesses egoístas típicos das dimensões mentais e emocionais, consigam tramar tranquilamente o que bem quiserem e, pelo visto, assim fizeram durante longo período. A política isolou-se em Brasília, virou profissão, com alto grau de corporativismo. Lá, sofisticaram trâmites e processos a ponto de deixá-los incompreensíveis para a maioria em uma manjada estratégia de reserva de mercado. Os tempos de internet mudaram drasticamente as perspectivas, não somente no Brasil, mas no mundo. Afinal não há nada oculto que, um dia, não seja revelado. A internet simplesmente forneceu os meios que permitiram a multiplicação de revelações a ponto de gerar nível suficiente de inconformismo para, num momento impulsivo carregado de emoções, descer na rua e gritar “chega!”.
Assim, pode-se dizer que o adágio foi desmentido de vez. Até a política passou a ocupar espaço nos relacionamentos sociais. E que espaço! O Brasil entrou em estado de choque, a ponto de alguns anunciarem uma guerra civil a caminho. De repente, certos Brasileiros emprestaram padrões de torcida para aplica-los à política. O “nós contra eles” passou a vigorar. Muitos sentiram-se impelidos a anunciar as 4 verdades que o outro precisava ouvir, numa atitude que mais releva dos padrões religiosos já comentados. A sociedade brasileira, quando finalmente expressou suas frustrações com as estruturas políticas de exercício do poder, o fez usando o viés emocional, em um fenômeno desenfreado, impactante e eletrizante. Se olharmos sob o prisma do modelo de Lewis, não podia ser de outra forma. O adágio já tinha advertido...
O contexto político atual é de caos. Batalhas maquiavélicas sucedem-se em ritmo frenético, tomando o país de refém com o único intuito de satisfazer interesses repetidamente infelizes. Enquanto isso, a população sofre, frustrada, necessitada e dividida.
Invejo a liberdade brasileira no quesito “expressão de emoções” no dia a dia das relações. Poder expressar emoções sem ser automaticamente taxado de fraco, incapaz ou louco é, no meu ver, motivo de admiração mais do que de crítica. Poder “fazer uma cena” e ser perdoado, com o evento rapidamente relegado ao porão do esquecimento, aquilo é um luxo!
Ainda assim, sabemos, emoções são facilmente manipuláveis. As propagandas usam ganchos emocionais há décadas incentivando o consumo por impulso. Muitos políticos não fazem nada senão usar figuras de retórica para tocar os corações ou tripas e, assim, influenciar as mentes ditas racionais. Os bons marqueteiros políticos, claro, destacam-se quando dominam aquelas ferramentas. Até determinados líderes religiosos usam tais recursos para atrair e manter fieis. A mente racional é momentaneamente anestesiada, o tempo necessário para atingir o objetivo almejado. Não por acaso, o apelo emocional está em todo lugar, estampado, incentivado, usado para toda finalidade, das mais nobres às mais questionáveis. Retomando o modelo de Lewis, no Brasil tais apelos tendem, portanto, a gerar impactos significativos, pela predisposição do público local.
Os recentes eventos demonstraram, mais uma vez, como emoções podem ser usadas para gerar movimentos de multidão, cristalizando-os. Quando o racional volta a dominar, o fato já foi consumado. Para novas reivindicações, necessita-se nova onda emocional que possibilite a geração de novo ciclo catalisador. Comitivas especializadas, de todas as tendências, são financiadas para iniciar e tentar manter esses ciclos. A crise generalizada, pela insegurança que gera, ajuda na multiplicação desses ciclos. O emocional fica ainda mais exacerbado e sugestionável quando a percepção sobre o futuro é negativa. Esta é a grande dimensão maquiavélica das atuais batalhas entre partidos.
Gosto de pensar que se a emoção pode ser usada para dividir, então pode ser usada para unir. Da mesma forma, há ferramentas de retórica, histórias e imagens que despertam a compaixão e solidariedade, outros aspectos “multi-ativos” enaltados no modelo de Lewis, portanto presentes no inconsciente coletivo brasileiro. Assim, quando confrontada à eventos traumáticos diversos, a população demonstra capacidade de organização rápida para questionar, prestar socorro, encaminhar doações que costumam chegar em grandes volumes. Incentivando a emoção certa, a ação solidária impõe-se naturalmente. E naquele instante, constrói-se, juntos.
Todavia, até onde consigo entender, só com a dimensão racional pode-se assegurar sustentabilidade no tempo ao impulso emocional e aquela é mais difícil de ser desencadeada. Ajuda, no entanto, a explicar a pouca durabilidade dos movimentos organizados na base da manipulação emocional. A razão pede conversa, troca aberta de opiniões e pontos de vista, concessões e muitas negociações. A atividade política saudável é fruto de um equilíbrio delicado entre o ímpeto emocional criador e a análise racional, na hora da implementação. Nada de novo acontecerá enquanto persistir a prática da manipulação ou recuperação para benefício próprio ou partidário, qualquer que seja. A política que, em sua essência, pede cooperação, virou competição. Possui no “enganar” seu principal pilar, em uma tendência que lembra a teatrocracia, forma pervertida da democracia, descrita por Platão há mais de dois milénios. Os milênios passaram, os hábitos parecem ter ficado.
O processo em curso não é exclusividade brasileira. As estruturas tradicionais de poder chegaram, em numerosos países, a insustentáveis limites, com suas repetidas manipulações, movidas por interesses particulares. Somente uma nova consciência cidadã conseguirá inventar uma nova fórmula de prática política democrática. O trabalho de conscientização começa em cada um para então surgir no coletivo, seguindo o precioso ensinamento: “se quiser mudar mundo, mude a si mesmo”. Consequentemente, assim espero, saberemos escolher sabiamente os líderes que administrarão aquela nova estrutura de exercício do poder. Haja emoções criadoras! E muita razão para implementar...

Philippe H Gidon

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Desigualdade, individualismo e violência no Brasil



Um primeiro aspecto considerado relevante para compreender o fenômeno das violências no Brasil se relaciona com o nosso modelo de sociedade, altamente desigual e excludente na sua forma de organização e distribuição dos bens culturais. Uma característica que muito contribuiu para a formação desse quadro social se relaciona com a presença da escravidão no Brasil até final do século XIX. Essa prática ajudou a naturalizar a desigualdade entre os indivíduos. Na legislação Colonial e Imperial, por exemplo, diante da Lei Civil o escravo era, ao mesmo tempo, coisa e pessoa, embora estivesse privado de todos os seus direitos civis. Por outro lado, diante da Lei Penal, o escravo sujeito ativo ou agente do crime era considerado pessoa e não coisa, ou seja, respondia plenamente pelos seus atos, sendo que a condição de escravo era considerada um agravante (WOLKMER, 2008).
Com a abolição, embora os indivíduos de pele negra tenham se tornado iguais aos de pele branca diante da lei, na prática a discriminação continuou, inclusive com respaldo da antropologia criminal emergente. O médico maranhense Nina Rodrigues (1862-1906) foi um importante divulgador das ideias racistas no Brasil, postulando uma inferioridade dos negros e mulatos em relação aos brancos. Rodrigues (1957) acreditava que os “não brancos” possuíam uma tendência natural a degenerescência e ao crime, defendendo, inclusive a importância de uma legislação especial para essas “raças”.
Mesmo com o final da escravidão e da Monarquia, o modelo de República  constituída no Brasil não tinha como fundamento um projeto social que valorizasse os interesses coletivos. Muito pelo contrário, a nossa República se desenvolveu marcada pela desigualdade, onde os ideais de cidadania nunca se fortaleceram. Assim, o nosso Estado se constituiu subordinado a interesses de determinados grupos ou famílias e não a partir de um pacto social baseado em regras formalmente definidas e aceitas por todos. A coisa pública é, nesse modelo, percebida como privada, pois não há uma instância universal legitimada na origem do sistema político e administrativo - o que existe são sempre núcleos locais de poder patrimonialista no sentido elaborado por Faoro (1989).
Desenvolve-se, assim, uma elite parasitária do poder que manteria o padrão de gestão tradicional e patrimonial decorrente do latifúndio patriarcal. Esse modelo sobrevive em diversas roupagens até a atualidade, fazendo com que os avanços sociais sejam muito lentos e possibilitando enorme concentração de riquezas para poucos e pobreza extrema para muitos. Um projeto excludente e desigual nas ofertas de acesso aos bens culturais. O pobre no Brasil é, antes de qualquer coisa, alguém a que fora negado o acesso às condições básicas de vida, como escolarização e salários dignos. Uma pobreza produzida pela desigualdade na distribuição da renda e das oportunidades de inclusão econômica e social.
Uma variável considerada central para a consolidação desse projeto desigual e injusto de sociedade foi o fortalecimento de ideologias individualistas. Esse processo se relacionou, particularmente, com a expansão da economia de mercado, as migrações, a industrialização, a introdução de novas tecnologias e o florescimento de uma cultura de massa. A disseminação de valores individualistas e a concomitante ampliação das possibilidades de escolha dos estilos de vida implicaram na diminuição do poder de coerção de instituições tradicionais, como família ou religião. Os indivíduos sentiram-se, então, mais “livres” para fazerem suas escolhas a partir dos seus próprios critérios “pessoais”. Velho (200) lembra que, mesmo considerando que a tensão social sempre existiu no Brasil, as interações eram mais pacíficas em função da lógica clientelista existente em uma sociedade tradicional. Os conflitos tendiam a ser resolvidos através de negociações, que impediam o confronto físico direto.
Embora o desenvolvimento do individualismo seja considerado condição necessária para o desenvolvimento da democracia, não é condição suficiente. Em determinadas sociedades como na americana, canadense ou na australiana, o movimento do individualismo aconteceu de forma a possibilitar a crença no contrato social como valor. A noção de que o poder político é consequência e expressão das relações entre indivíduos-cidadãos constitui a base dessas sociedades.

No Brasil, o individualismo constituído se acomodou a uma visão de mundo na qual a sociedade é percebida de forma desigual e hierarquizada. Foram criadas condições para o fortalecimento de uma cultura antidemocrática, marcada pela frágil valorização dos interesses coletivos. Assim, desenvolve-se um modelo de individualismo perverso, onde o outro é percebido como alguém inferior, que pode ser ignorado, explorado ou destruído de acordo com os interesses pessoais. Esse modelo de individualismo, embora não seja homogêneo, guardando as devidas particularidades e variações locais, é um traço fortemente presente em todo o tecido social. Constitui, ao mesmo tempo, causa e consequência de uma dinâmica belicosa, onde as violências são naturalizadas e até justificadas. 

domingo, 22 de maio de 2016

"Um Brasil de Caranguejos", de Raymundo Netto


Você que inventou esse estado e inventou de inventar
toda a escuridão. Você que inventou o pecado
esqueceu-se de inventar o perdão
Apesar de você, amanhã há de ser
outro dia!
(Chico Buarque)

O Ministério da Cultura voltou! O presidente interino – não por bondade nem por entender a necessidade estratégica da cultura para o desenvolvimento do país, o que é lastimável – voltou atrás e decidiu manter o Ministério.
Para quem sabe o que é cultura – e não estamos falando de mero entretenimento – e percebe o que a diversidade cultural de um país de proporção continental e miscigenado como o nosso representa enquanto riqueza – quem pensa que riqueza é apenas um tríplex com piscina e um Ferrari na garagem, não sabe, mas é pobre, pobre, pauvre de marré deci – o anúncio da extinção desse Ministério, que não já não atuava em toda a sua plenitude – nunca foi prioridade de governo – e que levaria anos para alcançar seu objetivo, é de uma gravidade extremosa e reveladora.
Vivemos num país no qual o seu conceito ainda é muito mal interpretado, menos ainda interiorizado como pertença e não é abraçado por muitos, além de que a sua ausência favorece aos interesses dos doutores da elite burra e gananciosa, afinal: um povo sem cultura é gado que em vez de chocalho bate panelas e desgasta o sofá no horário nobre de TV.
O tecnicismo de alguns governos que veem apenas a riqueza material como fonte de sobrevivência da nação nos indica o nível de miséria cultural de seu povo. E essa miséria cultural atrai a outra, de agarro e abraços com a injustiça e a desigualdade social. Claro que quem tem uma pontinha de segurança, os favorecidos historicamente e muitas vezes com poucos méritos de conquista, principalmente os homens, os brancos e os de classe alta e média, não se importam com questões de cultura e muito menos com a defesa de garantias sociais. Não é com eles! Daí, tremem de raiva ao ouvir falar de bolsa família, lei de cotas – que beneficia os negros e aqueles em situação de vulnerabilidade social –, favorecimento de casas populares, questões do aborto, o direito de transexuais e travestis em usarem um nome social (direito ora ameaçado por projeto (des)encabeçado por parlamentáveis dos partidos do atraso, como o PSDB, PRB, PV, PR, PHS, PSC, PROS, DEM e PSB, sempre eles), do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos – afinal, vociferam: “lugar de mulher bela e recatada (recalcada?) é servindo, por obrigação, ao macho em seu lar (cárcere privado)”; “negro não é raça” (e o branco é o quê?); e “direitos humanos é coisa de comunista (mas fui mal aluno em sociologia)” – entre outros benefícios que rondam a periferia de suas vidas e que só incomodam quando lhe chegam na esquina e gritam: “Fortaleza – a nossa – apavorada!”
Junte-se a esses atrasados, a bancada cruel, ignorante e preconceituosa mantida pelos evangélicos, e não pelos evangelhos (que significam “Boas Novas”), e que usa o nome de Deus e da família – recusam as novas configurações familiares –  para patrocinar a tortura e a opressão humana, o machismo e a domesticação feminina, a castração da sexualidade, a visão da arte como vagabundagem (só entendem de dinheiro, que é o negócio deles), e a expropriação livre daqueles que já nada tem em troca da vacina da resignação e da promessa de um paraíso de fundo de rede.
Cadê a manifestação dessa turma diante da atualíssima crise no sistema público de educação? O que há na cabeça desses infelizes, egoístas e infiéis à revolução cristã? Ora, Jesus não nasceu e defendeu os pobres, as minorias, os excluídos, com quem conviveu e dividia pães e peixes até a sua execução ser encomendada pelo poder e pela bancada sacerdotal da época?
A Educação e a Cultura, as maiores e mais duráveis conquistas de um povo, os verdadeiros instrumentos do progresso e do desenvolvimento, da harmonia e da autoestima de uma nação, sempre foram colocadas em segundo ou terceiro plano, e só lembradas durante campanhas eleitorais.
Há de se chegar a hora de ser abominosa e inaceitável toda a hipocrisia desses fariseus que manipulam as leis e as manobram em sacrifício do povo e em benefício próprio. Há de chegar a hora do povo despertar desse sono profundo e entender que somos um todo e que este país só será forte e respeitado pelo Mundo quando houver transformação social. Que esse dia venha pelas mãos do nosso povo e não por aventureiros. É querer demais?


#ELEIÇÕESGERAISJÁ  

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Mais Ciência e Menos Política?

Na sua opinião, qual o exame médico mais capaz de identificar uma alteração óssea, a ressonância magnética ou a tomografia computadorizada? E sobre aritmética, qual a sua opinião sobre quanto é 2 + 2? Sua opinião é relevante sobre esses assuntos? E sobre política, qual a sua opinião a respeito de privatização de uma empresa? Desde 2013, o brasileiro vem deixando de discutir futebol para discutir política. As disputas pela eleição de 2014 foram mais apaixonadas do que a torcida pela seleção brasileira durante a Copa do Mundo. Isso, a Copa tendo sido aqui no Brasil. Essa mudança ocorreu justamente, e talvez por isso, numa época de fácil propagação de ideias, com possibilidade de discussões a respeito de política via redes sociais e internet. Se antes cada brasileiro era um técnico de futebol, hoje cada brasileiro é um comentarista político. Diante de uma proliferação de comentaristas, naturalmente, alguns estarão embasados, enquanto outros escreverão as maiores bobagens. Grupos rivais, no entanto, acham que estão competindo com os mais renomados jornalistas ou cientistas políticos.



Acha-se facilmente na internet um vídeo em que o filósofo Bertrandt Russell dá, na primeira metade do século XX, dois conselhos à humanidade futura. Um dos conselhos é "diante de algum assunto que você venha a estudar, atenha-se aos fatos, não àquilo que você gostaria que fossem os fatos". Com as atuais discussões virtuais, acaloradas a ponto de causar perdas de amizades, obviamente, sugere-se que os ânimos se acalmem. Diante de uma discussão política com pontos de vista diferentes, no entanto, será que duas opiniões divergentes devem ser aceitas, pois ambas podem estar corretas, ou será que um dos (ou mesmo ambos) pontos de vista está simplesmente errado? Este texto tem a audácia de servir de guia politicamente correto para elevar as discussões sobre política.

Administração pública

O papel do Estado é um assunto de muita controvérsia, mas dois pontos são inquestionáveis:
  1. Para qualquer coisa que o Estado for fazer, será necessário haver verba.
  2. Toda verba do Estado provém de impostos.
Alguém discorda disso? Não, né? Ufa, nenhum inimigo novo até agora! Diante dessa verdade inquestionável, é salutar, portanto, que, antes de iniciar uma discussão, cada um se pergunte "eu sei quanto o governo possui de orçamento?". Se você sabe quanto o governo arrecada, a segunda pergunta a responder é "quais e de quanto são os principais gastos do governo?". Já sabe a resposta? Pode prosseguir. O próximo conhecimento indispensável para iniciar uma discussão política é "o orçamento do governo fecha no fim do ano ou são necessários empréstimos para fechar as contas?". Essas perguntas iniciais impedirão comentários bobos como "claro que tem dinheiro, o problema é a corrupção". Todas essas informações são públicas e divulgadas por órgãos com credibilidade, como o Portal da Transparência e o Banco Central do Brasil. Pronto, esta foi a parte fácil.

A parte mais difícil para responder à questão sobre verdades diante de discussões políticas vem agora.

Discussões sobre saúde pública

Com a Constituição Cidadã, de 1988, o Brasil passou a tornar papel do Estado o provimento de saúde pública, gratuita e universal. A grande discussão é: saúde pública bancada pelo Estado (ou seja, cada pessoa pagando via impostos - ou alguém ainda acha que é de graça?) é melhor que saúde privada (cada um pagando por si)? Parênteses: o não cumprimento desta determinação constitucional não torna, legalmente, todos os presidentes pós-1988 infratores da Constituição? Qual a consequência para um Presidente que fere a Constituição? Fecha parênteses. Perguntas a serem respondidas antes de discutir sobre saúde pública. 1- Qual o orçamento do Ministério da Saúde? 2- Quanto custa, por ano, por pessoa, a saúde nos países que possuem saúde de qualidade para todos? 3- Haveria verba para prover saúde pública de qualidade para todos os brasileiros se não houvesse corrupção? 4- A saúde pública gerida pelo Estado é mais eficaz na gestão de recursos? Em outras palavras, com o orçamento do Sírio-Libanês, o Estado consegue manter um Sírio-Libanês? Pronto: comecem a discussão. Com essas informações resolvidas, torna-se mais relevantes discussões como: como o Estado pode prover saúde pública para sua população de forma mais eficiente? Por meio do SUS, onde todo o serviço de saúde é planejado, executado e provido pelo Estado (como defendem os estatistas)? Ou por meio de vouchers (ou plano de saúde pago pelo governo) para serem usados em instituições privadas (como defendem os liberais)? Foi tomada uma decisão no passado, de enfatizar a saúde primária e preventiva, ao invés de focar na medicina especializada. Os melhores estudantes de medicina, no entanto, não têm escolhido trabalhar com saúde primária e medicina preventiva. Além disso, tem sido difícil interiorizar o provimento de saúde no interior do Brasil. Considerando que seja mesmo melhor priorizar a medicina primária e a medicina preventiva, qual a melhor maneira de tornar isso realidade? Essas perguntas podem ser respondidas de forma objetiva e técnica?

Não é necessário esmiuçar por categoria, pois o recado já foi dado. Para cada área, algumas questões precisam ser conhecidas antes de iniciar discussão. Muitos dos questionamentos, obviamente, não possuem ainda respostas, mas será que muitas das divergências políticas não poderiam ser solucionadas encontrando, simplesmente, verdades incontestáveis?

O "método científico" para buscar verdades

Há muitos anos, nas universidades e em instituições de pesquisa, utiliza-se o "método científico" para buscar verdades. O método científico consiste em uma técnica de busca da verdade. Conhecimentos prévios aliados a testes imparciais permitem avaliar hipóteses e chegar a conclusões. Na área da saúde, por exemplo, um ensaio clínico duplo-cego randomizado é a maneira mais eficaz de saber se um remédio funciona ou não. Esse tipo de estudo utiliza dois grupos de pessoas, distribuídos de forma aleatória, um grupo que usa pílula com medicamento e outro que usa pílula de farinha. Os resultados são avaliados por pessoas que não sabem quais indivíduos tomaram uma ou outra pílula. Será possível chegar a verdades políticas ou verdades em administração pública utilizando o método científico? Será que não seria uma maneira mais racional para se tomarem decisões? Quais foram os parâmetros que nossos parlamentares usaram, em 1988, para escrever nossa Constituição? Foram embasados em algum estudo científico? Nossos presidentes utilizaram alguma ferramenta científica para escolher a melhor maneira de distribuir o dinheiro público? Se o objetivo político é “prover saúde de qualidade para todos”, a solução mais eficiente precisa ser “prover saúde por empresas do governo, com remédios comprados pelo governo, prescritos por médicos contratados pelo governo”? Será que a resposta a essa pergunta pode ser dada pela Ciência, tornando menos relevante a opinião pessoal de milhares?

Parece que, ao invés de brigar ou cuspir em pessoas que divergem da própria opinião, seria mais construtivo o estudo científico da questão da discórdia. Será que a Ciência ainda não consegue determinar verdades para perguntas tão polêmicas como "privatizar melhora ou piora a utilidade de uma empresa para uma população?", "elevar impostos para aumentar a oferta pública de um serviço realmente o otimiza?", "subsídios a empresas grandes enriquece ou não um país?".

Naturalmente, para escrever no Facebook, não é necessário um estudo detalhado sobre um assunto de educação pública ou administração de verbas da saúde, mas será que, para um administrador público, não deveria ser algo a se pensar? Talvez seja possível deixar de lado as discussões para assuntos que a Ciência não pode ainda encontrar verdades. Como tornar as decisões estatais mais científicas? Mais técnicas, menos políticas? Será que a democracia que permite semianalfabetos serem eleitos é uma maneira aceitável de decidir políticas públicas? Os analfabetos precisam ser representados no Congresso Nacional? É inteligente permitir que “qualquer pessoa” proponha leis, mas apenas juízes submetidos a difíceis exames julguem as execuções dessas mesmas leis?


A proposta

Fica aqui uma proposta, em tempos de incontestável necessidade de reforma política: criar, no Congresso Nacional, grupos de cientistas com o objetivo de decidir baseado na ciência, não nos interesses de grupos políticos. Seguindo o conselho de Russel, políticas públicas precisam ignorar ideologias (aquilo que se gostaria que fosse a verdade) para encontrar as melhores soluções de problemas. Talvez a Ciência possa contribuir um pouco mais, e a Política, um pouco menos. As comissões técnicas do Congresso – Comissão de Ética, Comissão de Justiça, Comissão de Educação, etc.- talvez não precisem ser formadas por políticos. E se essas comissões fossem formadas por cientistas, com provas de admissão periódicas, com critérios mínimos de seleção (ser PhD, por exemplo)? Apenas as propostas de lei que fossem cientificamente aceitáveis, seriam postas em votação no Plenário, que, por sua vez, talvez devesse ser composto por políticos com formação acadêmica mínima o suficiente para entender questões técnicas tão diversas. Talvez fosse interessante que, para se candidatar, as pessoas deveriam primeiro ser aprovadas num teste sobre história do Brasil e administração pública, com questões de metodologia científica e lógica aristotélica. Talvez fosse interessante exigir um curso superior. Ao invés de cada deputado ter direito a 30 assessores, deveria ter direito a dois ou três. Ao invés de 570 deputados, que tal 300? O dinheiro economizado com menos deputados e assessores poderia ser mais bem empregado em comissões científicas de nomes ilibados, qualificados e periodicamente modificados. Alguém tem uma sugestão técnica melhor?

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Nada é passageiro

Quando evito falar sobre a politica brasileira, no seu atual momento, é porque me ronda uma espécie de medo em falar uma tremenda besteira ou falar algo que já é tão manipulado por nós no dia a dia. Mas pior do que falar assunto batido é fingir que certas coisas não existem. 

Nosso país nas décadas passadas viu-se de frente a uma das maiores crises de problemas de forma estrutural decorrentes de mudanças na economia política. E quando escutamos que os problemas estruturais brasileiros já não existem tanto ou simplesmente são esquecidos e passados para trás por outros assuntos me doem os ouvidos. E isso chega a mim de diversas fontes.

Sendo mais ousada ainda, arrisco dizer que um grande exemplo é a baixa produtividade brasileira que por décadas só pode ser explicada por fatores estruturais como o baixo investimento da tecnologia, baixa qualidade de educação e a formação inadequada da força de trabalho. Exemplos esses que são apenas os pilares, creio eu.

A educação brasileira recebe um baixíssimo investimento por aluno, a destribuição de terras no país detém uma desigualdade desumana, os gastos nos outros setores públicos requerem melhorias no custo benefício, o nosso sistema tributário é um dos mais complexos e caros do mundo e ainda podemos fechar com um problema sério de exploração sexual que resulta de uma imagem lançada mundo a fora.

Negar os problemas estruturais da economia, política e sociedade em geral quando eles são tão evidentes nos tira a credibilidade que, na teoria, depositamos no nosso governo. Governo esse que demanda mais esforço para corrigir tais problemas.

Aí pulamos para o drama de tais mudanças serem aprovados pelo Congresso, o que geraria mais apoio dos parlamentares e então finalizamos a conversa falando das duas casas Legislativas envolvidas em suas próprias crises e seus respectivos presidentes citados em casos de desvio. Problemas de conjuntura? Quem dera! 

Ainda mais se a nossa crise fosse assim, como ela é apresentada ao resto do mundo (e para nós também). Isso significaria que seria momentânea e passageira. 

É, Brasil, nada tem sido muito momentâneo nem passageiro, e a minha esperança sobre e melhoria de tudo isso é uma delas. 


Bárbara Polyne

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Sozinha a Cismar

Essa estrada
Esse rio seco”
(Dominguinhos e Djavan)

Não consegui escrever esta semana por motivos de: estômago embrulhado. A situação atual minou minha inspiração. Não está fácil “pensar o Brasil”. Nem ao menos matutar despretensiosamente.
Eu tinha algo rascunhado sobre o país que quero, aquele Brasil que desejo ver um dia. Elucubrações, ideias, um traço de ideologia aqui e ali. Faz algum sentido escrever sobre isso uma hora dessas? Todo dia é um 7 a 1 diferente.
É impossível evitar falar acerca do que se passa no momento, mas não me vejo escrevendo a respeito (coerência, cadê). Até porque o Facebook já nos oferece quantidade suficiente de textões bem intencionados.

Alguém diz ser “o começo da mudança”, tipo “o momento da virada”. Gostaria de estar assim otimista, na esquina da vorfreude.
Pra não passar em branco, reflitamos: o caminho não é desacreditar da atividade política; não há país sem governo. Puxado, né?
Que fique claro: minha relativa moderação não é fruto de neutralidade.
Dedos cruzados, coração apertado.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Estrangeirismos, empréstimos e neologismos



“Os nomes acompanham as coisas” diz um conhecido provérbio latino. Como resultante do intercâmbio desigual entre as nações, verifica-se no Brasil e em outros países periféricos um crescimento extraordinário de estrangeirismos, empréstimos e neologismos no léxico. Paralelos à vinda das utilidades provenientes do chamado Primeiro Mundo, especialmente no campo da Informática, importam-se também sistemas filosóficos, teorias econômicas, modelos de análise, comportamentos e modismos os mais variados.


O fenômeno não é novo. Após a independência política de Portugal, o Brasil, na ânsia de afirmar-se como nação, buscou influências de outros povos e a França, que na época exibia extraordinária fase de crescimento, foi escolhida como novo paradigma. Foi a vez dos francesismos ou galicismos tão condenados pelos puristas. Muitas palavras foram integradas à língua portuguesa (os empréstimos); outras conservaram a forma original, talvez por conferirem um pouco mais de status a quem os empregava (estrangeirismos); outras foram simplesmente criadas a partir  de vocábulos já existentes e aceitos pelo povo, porém com nova significação (neologismos).


A contribuição estrangeira sempre ocorreu no vocabulário de todos os povos. O hebraico, por exemplo, exerceu forte influência sobre o grego e este sobre o latim. O idioma do Lácio se impôs na Península Ibérica e se misturou com os falares dos povos dominados, provocando o surgimento das conhecidas línguas neolatinas.

No Brasil, o idioma do colonizador extinguiu as línguas crioulas, mas não ficou de todo isento de sua influência, como atestam as inúmeras palavras indígenas. O negro também conseguiu, com a sua rica contribuição para a cultura brasileira,  enriquecer significativamente o vocabulário.


Modernamente, com a globalização, juntamente com o importado, surge a necessidade de nomear urgentemente o novo produto. A velocidade com que o fenômeno ocorre, a total impossibilidade de controle das academias e entidades voltadas para o estudo do vernáculo, agravado com o seu crônico distanciamento da realidade linguística do país conduzem ao surgimento de vocábulos que muitas vezes lamentavelmente violentam grosseiramente a estrutura da língua portuguesa. Exemplo mais antigo, veja-se o vocábulo gol, que no plural recebeu o s sem a necessária presença da vogal temática e de kosovares, tradução apressada e leviana do inglês, com a presença de um sufixo indicador de adjetivo pátrio completamente estranho ao nosso sistema linguístico.


Há realidades novas que receberam designação de palavras já existentes no idioma (carreata, mensalão) e outras que surgem a partir de palavras estrangeiras (deletar, escanear). Nossa amiga Lia Sanders manifestou na última contribuição para o Matutando o Brasil a necessidade de se criar no idioma pátrio palavra correspondente ao Vorfreude, do alemão, que teria mais ou menos o sentido de antegozo por algo bom que ainda vai acontecer. A proposta é pertinente. Lembrou-me Machado em Esaú e Jacó - “há pessoas para quem o adágio que diz que “o melhor da festa é esperar por ela” resume todo o prazer da vida”. Parece não haver mesmo palavra em português que traduza com fidelidade do vocábulo tão bem referido.


Seria ingenuidade condenar a presença de estrangeiros, empréstimos e neologismos no idioma.  São eles inevitáveis e perfeitamente aceitáveis, quando necessários para denominar realidades inteiramente novas. Nestes casos, servem até para enriquecer o léxico. Muitos conferem um valor altamente expressivo, quando possuem  constituição sonora mais motivada do que o correspondente no vernáculo. A busca pela expressividade levou o já citado Machado de Assis não só a utilizá-los, mas com fina ironia a criticar a imposição de neologismos ridículos para substituir os francesismos da época.


Existem, no entanto, atualmente na língua portuguesa palavras e construções perfeitamente supérfluas, como os inúmeros estrangeirismos do chamado economês, que revelam ora o exibicionismo ridículo de quem os emprega, ora a subserviência crônica diante do que é estrangeiro, ora a busca inescrupulosa de mistificar teorias para torná-las inacessíveis à compreensão, diante da vacuidade e a inoperância de seus conteúdos e métodos.


Myrson Lima


quarta-feira, 13 de abril de 2016

O País da Vorfreude


As palavras não são supérfluas. Emplacam somente se o conceito que carregam for culturalmente relevante a ponto de exigir tais nobres condecorações. Eu me contorço mais com uma palavra incorretamente empregada que com o uso de um vocábulo fraco em detrimento de outro mais específico. “Bicho” e “coisa” cumprem lá o seu papel quando o vocabulário não chega. Andamos muito confusos com termos como golpe, elite e todas as suas derivações, mas não, não entrarei nesse mérito. A palavra que me ocupa neste texto é alemã: Vorfreude (pronuncia-se “for-froi-de”). Soa estranho, mas significa alegria antecipada ao imaginar futuros prazeres. Em uma breve pesquisa, encontrei candidatos a equivalente em Português: expectativa, antecipação. Com todo respeito ao empenho dos tradutores, nenhuma capta o real sentido do termo. Um dicionário de Português de Portugal até sugeriu antegosto como tradução, mas antegosto mais parece desgosto. Não, não funciona. Os anglo-americanos logo tratam de incorporar a seus dicionários palavras estrangeiras sem correspondente em Inglês. Gostaria de incluir Vorfreude no nosso. Troco por saudade, se inevitável. A permuta é vantajosa, argumentaria até com Fernando Pessoa... Ao invés de mirar nostalgicamente o passado, olhemos com alegria para o futuro! Vorfreude representa um salto evolutivo dos alemães, talvez até de outros povos. Acredito que diversas culturas já tenham assimilado o conceito. Vejam bem, não se trata da capacidade de se sacrificar para obter uma recompensa futura. A questão é começar a se alegrar hoje com algo que ainda está por vir, numa espécie de alegria antecipada. Júbilo dessa natureza requer certa previsibilidade, garantia de que coisas boas virão. Fácil supor que Vorfreude tenha surgido, no curso de um tenebroso inverno, como um entusiasmo crescente com a primavera que, indubitavelmente, viria. Na maior parte do Brasil, não contamos com a previsibilidade das estações do ano, nem mesmo da economia ou da política. A nossa expectativa do futuro é temerária, sofrida, depositada em santos, pendurada à controversa promessa de chuva. Ainda assim, experimentamos Vorfreude. Qual é o brasileiro que não se alegra de antemão com a perspectiva de uma esperada viagem? Ou com uma comemoração que se aproxima? Para muitos alemães, a Vorfreude supera em intensidade até a própria Freude (alegria)! Objetivo alcançado, projeto novo. Uma alegria tão intensa pelo que ainda se está a edificar energiza. Pode nutrir toda sorte de empenhos e investimentos em um estado de esperança produtiva. Advogo um lugar para Vorfreude em nossa cultura, para que a ela nos atentemos. Regozijar-se com a perspectiva dos acontecimentos pode-nos tornar genuinamente produtivos. A Stefan Zweig, austríaco, devemos o epíteto “País do Futuro”. Pensando em Alemão, o escritor – desconfio – sentiu Vorfreude pelo nosso país. Nós não captamos. Entendemos o futuro como algo distante, que nunca se alcança... Talvez só nos alegremos com o porvir, se nos empenharmos em construí-lo a contento. O que estamos esperando?

Lia Sanders

domingo, 10 de abril de 2016

A IMPORTÂNCIA DA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR



Conflito é uma palavra que não representa um aspecto específico da realidade, mas determinados tipos de relações, sendo impossível definir contornos fixos para balizar seus significados. A origem etimológica do termo vem do latim conflictu (choque, embate, antagonismo, oposição) e do verbo confligere, que significa lutar. Os conflitos sociais, portanto, se relacionam com as diferenças, sendo gerados a partir da contraposição de ideias ou de condutas. Os conflitos podem ser destrutivos, produzindo violências, mas, a depender de como sejam resolvidos, podem contribuir de forma positiva para transformações nas relações sociais.

A violência no Brasil faz parte da cultura. Figura nos modelos de relações e de autoridade, marcados pela fragilidade dos espaços para o diálogo. Em 2014, 53.240 pessoas foram assassinadas em nosso país. Em números absolutos, o Brasil é país onde mais se produz homicídios em todo o mundo. Mudar esta realidade envolve um conjunto de ações que possibilitem alterar crenças e comportamentos profundamente enraizados na sociedade. A prática da mediação de conflitos, em contexto judicial ou extrajudicial, constitui uma estratégia que pode contribuir neste processo, ajudando a refazer laços afetivos, familiares e sociais. Mesmo que os mediados não cheguem a um acordo, o processo tende a diluir as hostilidades, constituindo um modelo de interação cooperativo, que pode ser utilizado em diferentes situações de disputa.

Nas escolas brasileiras, a mediação escolar ainda está começando a se desenvolver. A experiência considerada pioneira foi a do Projeto Escola de Mediadores desenvolvida no Rio de Janeiro em 2000, pelo Instituto NOOS, Viva Rio – Balcão de Direitos, Mediare e a Secretaria Municipal de Educação, em duas escolas públicas do Município do Rio de Janeiro. A iniciativa teve o apoio do Ministério da Justiça, por meio da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, responsável pelo Programa “Escolas de Paz”. Os resultados desse projeto foram considerados muito positivos, tendo gerado a Cartilha Escola de Mediadores, que fornece informações sobre os processos de mediação, bem como de implementação da mediação escolar.

A mediação faz parte dos chamados meios Apropriados de Resolução de Disputas (RADs), que surgiram na década de 70 nos Estados Unidos da América e se espalharam rapidamente pelo mundo ocidental. Inicialmente, a sigla RADs significava Resolução Alternativa de Disputas, englobando os métodos alternativos ao julgamento pelo Judiciário. Os meios Apropriados de Resolução de Disputas englobam, entre outros, mediação, negociação, arbitragem e conciliação. Na mediação existe uma terceira pessoa que visa restabelecer o diálogo entre as partes (mais utilizada em situações onde existe um vínculo entre os envolvidos no conflito); na negociação não existe a terceira pessoa, as partes resolvem o problema diretamente; na conciliação, a terceira pessoa interfere ativamente visando a possibilitar um acordo; e na arbitragem uma terceira pessoa é eleita para tentar resolver o conflito.

Na Justiça brasileira, não existe ainda consolidada uma cultura que valorize os RADs, mas crenças que estimulam a resolução das querelas por meio de processos nos tribunais. Um importante passo para mudar essa realidade foi a criação da Lei 13. 140, que dispõe sobre a mediação judicial e extrajudicial na resolução de conflitos, publicada no Diário Oficial da União no dia 26 de junho de 2015 e passando a vigorar a partir de janeiro de 2016. Segundo o texto da Lei, fica determinado que qualquer conflito negociável possa ser mediado, com exceção dos que tratarem de filiação, adoção, poder familiar, invalidade de matrimônio, interdição, recuperação judicial ou falência. A Lei determina também que a mediação, além de presencial, pode ser realizada pela internet ou por meio de comunicação que permita o acordo à distância.

Cabe lembrar que a mediação escolar implica outra concepção de poder, mais horizontal, onde os sujeitos envolvidos em conflitos possuem um papel ativo na sua superação.  O poder de decisão deixa de se concentrar nas mãos dos educadores e passa a circular também entre os estudantes. Este parece ser o grande desafio para os gestores das escolas brasileiras: abrir mão de um modelo de poder centralizador e punitivo em nome de um modelo mais democrático e participativo. Desafio que não encontra como maior obstáculo os entraves burocráticos da máquina administrativa do Estado, mas envolve questões que a escola possui autonomia para resolver.

O problema central, tudo indica, é a existência de uma cultura escolar bastante enraizada, descrente na utilização de estratégias democráticas para enfrentar os problemas cotidianos.  Dito e outra forma, as escolas brasileiras, no geral, não acreditam no diálogo. Ainda é muito forte a presença de modelos de poder totalitários, onde não existem maiores espaços para divergências. Os ideais pedagógicos dominantes ainda estão voltados para produzir homogeneizações. Seja na escola ou na família, o ideal de pessoa continua sendo o sujeito que aceita se submeter à ordem estabelecida sem maiores questionamentos. Os conflitos de interesses ainda são tratados sobre o signo da rebeldia e da desobediência, logo, passíveis de punição.

No Brasil são poucos os estudos sobre experiências de mediação de conflitos na escola, exigindo uma avaliação cuidadosa das possibilidades de implantação desse método, que não deve ser feito por pessoas desqualificadas. A nossa histórica tradição de autoritarismo e descrença no diálogo não será desfeita da noite para o dia. As escolas sempre culparam o estudante pelo fracasso dos seus programas, sem um olhar mais crítico sobre si mesmo. As chances de experiências de mediação funcionarem dentro de uma instituição antidemocrática, que não se implica com as ações que ocorrem no seu interior, são frágeis. A crença na justiça e no respeito às regras de convívio coletivo se fortalecem em um ambiente onde existe diálogo. Esse é o princípio fundamental da democracia e um grande desafio para as escolas brasileiras no século XXI. Não há como educar jovens forjados em uma cultura individualista, que tem como pressuposto básico a liberdade de escolha, de maneira unilateral, através de imposições e castigos.


Antônio Lima