segunda-feira, 22 de agosto de 2016

VIOLÊNCIA E COTIDIANO ESCOLAR

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O objetivo deste texto é apresentar uma parte das conclusões que cheguei através da minha pesquisa de mestrado na Universidade do Estado da Bahia, sobre violência na escola. A pesquisa seguiu uma orientação etnográfica e foi realizado em uma instituição da rede pública de Salvador entre os anos de 2009 e 2010. Sem desconsiderar a dimensão extramuros da violência, o estudo visou problematizar a dimensão local do fenômeno. Pretendeu-se, desta forma, reconhecer o papel ativo dos estudantes, professores, coordenadores, diretores e outros funcionários, como coautores na produção e no enfrentamento das problemáticas constituídas no mundo da escola.
Violência vem do latim, violentia, que reporta a vis, que significa força física, vigor.  Para Zaluar (1999), essa força torna-se violência quando ultrapassa determinados limites, ou perturba acordos tácitos e regras que ordenam relações. A percepção do limite, da perturbação e do sofrimento causado, que vai caracterizar um ato como violento ou não, sempre varia de acordo o contexto histórico e cultural. Isso dificulta elaborar uma definição fechada do fenômeno, sempre contingente e multifacetado. A autora situa, em consonância com diferentes pesquisadores (ADORNO, 2002; DAMATA, 1981; VELHO 2004; KANTE DE LIMA, 1999) que a violência constitui um tipo de relação social marcada pela negação do outro devido ao “[...] pouco espaço existente para o aparecimento do sujeito da argumentação, da negociação ou da demanda, enclausurado que fica na exibição da força física pelo seu oponente ou esmagado pela arbitrariedade dos poderosos que se negam ao diálogo” (ZALUAR, 1999, p. 8).
A violência fatal no Brasil, ao longo dos últimos 20 anos, se tornou um fenômeno endêmico, que produziu, em 2014, 59.627 homicídios. Uma parte expressiva dessas mortes, contudo, não decorreram de atividades criminosas, como tráfico de drogas ou assaltos. Uma pesquisa realizada pelo Conselho Nacional do Ministério Público, entre os anos de 2011 e 2012 em 16 Unidades da Federação, aponta em outra direção. A maioria dos homicídios elucidados fora motivado por conflitos considerados fúteis, como ciúmes, conflitos entre vizinhos, desavenças, discussões, violência doméstica, desentendimento no trânsito, dentre outras. Esses números confirmam que a violência fatal no Brasil não deve ser pensada como mera reação a uma ordem estabelecida, ou como “desvio” do sistema, mas como um elemento bastante enraizado da cultura, sendo que o desrespeito ao outro é regra e matar tornou-se uma possibilidade banal.
 Esta violência presente na cultura, inevitavelmente, penetra no interior da escola afetando a sua dinâmica de funcionamento. Contudo, a escola não é situada neste estudo como mero reflexo passivo das estruturas da sociedade. As violências que acontecem no seu interior se relacionam, ao mesmo tempo, com o contexto histórico e social do qual é parte e com os padrões de interações desenvolvidos no seu cotidiano. Considerando-se esta complexidade, seguem os principais contextos que foram mapeados na produção dos conflitos e das violências na escola.
No primeiro contexto, tratava-se da violência institucional, que figurava nos padrões de dominação instituídos. Na escola pesquisada inexistiam maiores preocupações em negociar as regras de convívio, prevalecendo uma lógica unilateral, sendo desconsiderada as vozes dos estudantes. Não existia uma dominação racional legal, pode-se ler em Weber, baseada em um pacto social, mas relações tradicionais sem legitimidade. Assim, as punições constituíam os principais mecanismos de controle dos estudantes.
Segundo Weber (1991), o poder se torna legítimo quando se estabelece a obediência voluntária. Em tal contexto, a figura de poder é percebida como dotada de autoridade e a ordem é cumprida por adesão, diferente da obediência por coerção, que funciona através do medo das possíveis consequências do ato transgressor. Os gestores da escola não consideravam a importância da legitimação das regras de convívio, que eram impostas de forma unilateral. Essa descrença generalizada na democratização da instituição era um componente extremamente enraizado na cultura local, potencializando muito os conflitos existentes.
O segundo padrão representa o que Zaluar (2001) batizou de violência psicológica, “que se manifesta nos processos de avaliação e nas formas de interação que se estabelecem entre diretores, professores, funcionários, alunos e responsáveis”. Nestes modelos, a responsabilidade pelo fracasso escolar, seja a repetência ou a evasão, é creditada sempre aos estudantes, percebidos como portadores de transtornos, deficiências ou indisciplinas. Segundo Zaluar esta percepção produz humilhação nos jovens, comprometendo sua autoestima, podendo gerar sequelas profundas nas suas vidas. Por outro lado, as formas de interação dominantes eram marcadas pelo não diálogo e pela fragilidade dos vínculos entre estudantes, professores e gestores, contribuindo para gerar um clima de insatisfação e revolta.
No terceiro contexto, que resultava do primeiro e do segundo, existia uma reação contra a instituição, que se expressava nas violências dirigidas às pessoas ou aos objetos que representavam a escola – depredações, furtos, xingamentos e ameaças. Esses conflitos refletiam a insatisfação dominante entre estudantes com os modelos de relacionamentos estabelecidos, particularmente o modelo de autoridade. “Aqui dentro é como uma prisão, qualquer coisa eu pego todo mundo amarro e toco fogo” (Fala de aluna do 8ºano). O resultado era a constante depredação do patrimônio escolar, que figurava em portas destruídas, paredes pinchadas, vasos sanitários danificados, equipamentos furtados, além das desobediências generalizadas nas salas de aula, gerando um ambiente problemático para a aprendizagem.
O quarto contexto decorria de algum tipo de conflito entre os estudantes. Uma característica na dinâmica desses conflitos era o tipo de motivação que, na sua grande maioria, não envolvia maiores divergências ou disputas. Havia um clima que reeditava os cenários extramuros, tornado qualquer mal-entendido, como um olhar ou o tom de voz, justificativa para agressões. A descrença no diálogo ou na mediação institucional como mecanismo para resolver os conflitos era geral. A grande maioria dos estudantes só parecia acreditar em um tipo de justiça: aquela que eles podiam fazer com as próprias mãos.
No quinto contexto, os episódios de ataques e as lutas frequentes eram experimentados como uma grande diversão. Elias e Dunning (1992) chamam a atenção para a violência expressiva, que visa produzir satisfação emocional e não se relaciona, necessariamente, a qualquer conflito. Apesar da escola pesquisada possuir quadras de esporte, além de equipamentos de jogos de salão, auditório e sala de vídeo, durante os horários livres não oferecia qualquer atividade recreativa ou lúdica para os estudantes, que ficavam espalhados nos pátios e corredores. Uma parte das agressões e das lutas que se alastravam, representava a principal opção construída pelos estudantes para se divertirem.
O sexto contexto, o identitário, lança luz sobre uma famosa definição amplamente utilizada entre os alunos: “Aqui a gente bate para mostrar quem é melhor”. Nesse contexto, o uso da força física representava uma importante referência para a afirmação de cada um na dinâmica das relações locais.
Em uma sociedade tradicional e altamente hierarquizada como foi o Brasil até meados do século XX, a identidade cultural era uma construção muito mais imposta de fora para dentro, a partir do lugar que o sujeito ocupava na trama social. No geral, possuía um caráter relativamente definitivo, com poucas chances de mudanças. Questões como nacionalidade, raça, sexo e religião eram as principais referências. 
Nos cenários contemporâneos, como lembra Bauman (2005) a crescente valorização do individualismo enfraqueceu o peso do mundo tradicional, invertendo o processo de construção identitária, que se tornou mais flexível e negociado, contando muito a escolha pessoal. Assim, o sujeito pode transitar mais pelo espaço social, mudando, por exemplo, de religião, de sexo, ou mesmo etnia, a partir dos seus próprios critérios subjetivos de identificação. Esse processo enfraqueceu os vínculos de pertencimento, deixando o sujeito, ao mesmo tempo, mais “livre” para ser quem ele quiser e mais inseguro e perdido diante de tantas incertezas.
Por outro lado, ninguém cria sozinho ou escolhe para si uma identidade como quem pega uma roupa no armário. A identidade é constituída nos processos de interação social, onde o olhar do outro funciona como um espelho. É o reconhecimento do olhar do outro que nos possibilita a experiência de uma identidade. “Nós nada somos e valemos nada se não contamos com o olhar alheio acolhedor, se não somos vistos, se o olhar do outro não nos recolhe e salva da invisibilidade” (SOARES, 2013).
No caso do Brasil, esse processo se revela, particularmente, problemático em função da extrema desigualdade social, onde milhões de jovens são condenados à invisibilidade. Um contexto paradoxal, marcado, de um lado, pelo consumismo e pelos ideais de democracia e liberdade e, de outro, pela exclusão e pela miséria. Assim, como afirma o antropólogo Luiz Eduardo Soares (2013), muitos jovens, condenados a uma existência sem perspectivas ou possibilidades de reconhecimento social, tomam o caminho da violência como última maneira de construírem uma identidade e se tornar visíveis.
As escolas merecem destaque especial nesse processo, pois constituem espaços de aprendizagens e de formação, onde os jovens passam parte expressiva de suas vidas. Deveriam, portanto, possibilitar aos estudantes sentirem-se acolhidos para construir seu projeto de vida. Contudo, não é isso que se verifica na grande maioria das escolas públicas brasileiras, onde os elevados índices de evasão e fracasso apontam para outra direção. Segundo Relatório de Desenvolvimento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (2013), um a cada três alunos que inicia o ensino fundamental no Brasil, abandona a escola antes de completar a última série. Temos o quinto maior índice de evasão escolar entre 100 países pesquisados, ficando atrás da Bósnia Herzegovina, das ilhas São Cristóvão e Névis, no Caribe. Na América Latina, só Guatemala e Nicarágua nos superam.
No caso específico da escola pesquisada, o uso de violências constituía um componente cultural amplamente valorizado e aceito pela maior parte dos estudantes, independente do gênero, idade ou cor da pele. Embora esse processo se relacionasse com o contexto escolar marcado por um clima de insatisfações, não representava mera reação contra a instituição ou produto dos conflitos entre os alunos. Tudo indica que, na falta de mecanismos institucionais legítimos, que possibilitassem reconhecimento e valorização, os jovens utilizavam a violência como um recurso para sair da invisibilidade e ganharem uma certa identidade. Um quadro problemático, que reedita os cenários extramuros da escola, onde as chances que a sociedade oferece para os jovens mais pobres construírem um projeto de vida são muito frágeis.
Uma problemática considerada básica para tentar alterar essa dinâmica em contexto escolar consiste em abrir mão de modelos de autoridade centralizadores, em nome de modelos mais democráticos, que se estabeleçam a partir de um pacto social, onde as vozes dos estudantes sejam contempladas. As violências proliferam em contextos sem cultura de negociação ou onde as regras de convívio caíram no descrédito.
Um passo fundamental para tentar pacificar as relações na escola consiste em redimensionar a crença na importância dos castigos e desenvolver mecanismos mediadores legítimos, que se tornem opções válidas para a resolução dos conflitos locais. Não apenas entre os estudantes, mas de toda comunidade acadêmica. A escola, enquanto espaço de convívio, reúne diferentes crenças, interesses e perspectivas. O grande desafio dos seus gestores será aprender como mediar essas relações. Um processo que dificilmente será conseguido através de imposições e castigos. Isso não significa afirmar que seja desnecessário desenvolver mecanismos de coerção, mas focar nos ideais de democracia, de justiça e, principalmente, de respeito às diferenças, os principais meios para enfrentamento das violências na escola.  

Por fim, é importante assinalar que a escola sozinha não tem o poder de mudar padrões fortemente enraizados na sociedade. Ao adotar práticas mais democráticas na gestão dos conflitos, deixará de reproduzir condições favoráveis para as violências proliferarem no seu interior. Existem diferentes escolas no Brasil e no mundo adotando estes princípios, com resultados muito animadores, como a Escola Municipal de Ensino Fundamental Campos Sales em São Paulo, a Escola Casa Via Magia em Salvador, o Colégio Asas em Feira de Santana e a famosa Escola da Ponte em Portugal. Estas escolas fortaleceram a crença no diálogo e na mediação de conflitos. Esse é o grande desafio das escolas brasileiras no século XXI. Não há como educar jovens forjados em uma cultura individualista, que tem como pressuposto básico a liberdade de escolha, de maneira unilateral, através de imposições e castigos. 
       

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Esquerdismo gera violência?


"Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz". Essa frase é atribuída ao poeta russo Vladimir Mayakovsky (1896-1930). Em 2014, quase 60.000 pessoas no Brasil foram assassinadas. Recorde mundial. Será que a palavra pertinente do autor russo foi o "parece"? A taxa de homicídios é o índice de violência mais acurado (já que muitos roubos e agressões não são registrados), e aumenta em números absolutos e em números proporcionais à população brasileira há décadas. Quais são as causas desse aumento absurdo de violência presenciada no Brasil? Minha educação com mestres predominantemente marxistas nos meus até agora 26 anos de estudo tentou me convencer de que as questões sócio-econômicas (o grande número de pobres e a enorme desigualdade sócio-econômica brasileira) e as questões históricas, como influência de nossos ascendentes perversos e exploradores são as principais causas do aumento da violência em nosso país. Mais recentemente, tenho escutado muito que a violência aumentou por conta das drogas ilícitas. Não sou especialista neste assunto, mas, dados públicos parecem sugerir que isso não é verdade.

Os gráficos a seguir não levantam dúvidas de que o crime aumentou no Brasil no mesmo período em que melhoraram as condições sócio-econômicas. Isso é fato. Sendo as questões sociais uma causa de aumento de violência, esta não deveria melhorar quando as questões sociais melhoram? Quanto mais as condições sócio-econômicas melhoram, segundo os mestres marxistas, menor deveria se tornar o índice de violência. No Brasil, nas últimas décadas, ocorreu o contrário: houve melhora sócio-econômica, porém a violência piorou. 


Fonte: IPEA


Dados de 1980 a 2002. Fonte: IPEA


Dados de 1980 a 2002. Fonte: IPEA


Fonte: IPEA

A herança cultural como influência no aumento da violência, perdoem-me, não possui plausibilidade, já que a crescente violência a que me refiro é a violência atual, que cresceu ao longo dos anos do século XX, enquanto as questões culturais foram fatos dos séculos XV-XIX. Caso estivéssemos falando da violência nesse período, faria sentido, mas, o crescimento dos números de violência entre 1960-2010 não pode ser algo atribuído ao tipo de imigração que ocorreu entre 1500-1900. Acho que isso nem merece discussão. A miscigenação e herança cultural da população brasileira em 1910 e em 1960 eram basicamente as mesmas.

Muitos falam ainda que, no Brasil, a violência ocorre porque aqui não há penas severas e há grande impunidade. Contra isso, levanto a pergunta: as punições eram mais severas em 1950 do que atualmente? A polícia conseguia desvendar mais homicídios em 1950 do que nos dias atuais? Mais uma vez, parece que essa não é a resposta.

Sobre a questão das drogas, de fato, as estatísticas mostram que houve um aumento do consumo de drogas no Brasil nas últimas décadas. Faz sentido, do ponto de vista estatístico, portanto, que as drogas tenham relação com aumento de criminalidade (ambos cresceram). Contra isso, no entanto, mostro o seguinte gráfico. 




É bem nítido que os países mais seguros do mundo possuem uma porcentagem muito elevada de pessoas que usam drogas. Eles são seguros apesar do enorme consumo de drogas, muitos com frequência de uso maior que a do Brasil (como a Austrália, país liberal desenvolvido com baixo nível de criminalidade, que aparece com maior porcentagem de usuários de cocaína). As substâncias psicoativas sempre estiveram presentes na humanidade. O lança-perfume já foi permitido no Brasil, como ainda são o álcool e o fumo. 

Será que as drogas são o vilão brasileiro que elevou a violência? Talvez, mas, nesse mesmo período em que tem havido um aumento de violência no Brasil, outra coisa também aumentou: o esquerdismo. Do ponto de vista estatístico, portanto, pode haver uma correlação entre esquerdismo e violência.

O esquerdismo no Brasil a que me refiro não é o governo esquerdista, é a mentalidade esquerdista de nosso povo. É praticamente um consenso entre os brasileiros que o Estado deve ser grande o suficiente para prover várias necessidades, como educação, saúde, transportes, justiça, e ainda gerir empresas como bancos e petroleiras. É algo tão enraizado, que poucos param para questionar se é realmente pertinente que alguns dos maiores bancos do país sejam do governo. Não foi sem traumas que empresas telefônicas e aeroportos foram entregues à iniciativa privada. Foi por necessidade, não por convicção. Poucos brasileiros possuem o espírito liberal de acreditar nos poderes do livre mercado e do Estado mínimo. Alguém já viu um partido político ou candidato defender menos impostos e menos direitos? Os nossos partidos supostamente de direita, como o PSDB, implementaram uma agenda contrária ao liberalismo, pois ampliaram o SUS e criaram programas de transferência direta de renda, além de terem aumentado a carga tributária. O partido republicano dos Estados Unidos afirma abertamente na TV que cada indivíduo deve pagar por suas contas médicas. Alguém aqui no Brasil já ouviu isso de algum partido? Pois é, somos um país de esquerdistas...

Este sentimento estatista, coletivista, parece ter surgido e crescido ao longo do século XX, provavelmente impulsionado pelos anos de ditadura entre 1964-1985. Os militares de 1964, apoiados pelos Estados Unidos, tomaram o poder para, supostamente, evitar a ascenção do Comunismo no país. Com as medidas repressivas do governo, diversos segmentos passaram a criticar a ditadura. Pouco a pouco, o sentimento coletivista tornou-se praticamente unânime entre os diretórios estudantis e entre os professores universitários e, como eu, muitos que estudaram a partir das décadas de 70 e 80 passaram a receber uma doutrinação marxista e anti-mercado nas escolas brasileiras, mesmo nos caros colégios particulares. A luta contra a ditadura uniu diversos setores da sociedade. Os defensores da democracia passaram a ser aliados dos defensores do comunismo numa luta cultural e armada contra o regime ditatorial. Se a luta era contra a ditadura, e a ditadura havia surgido para evitar o comunismo, parece lógico que quem era contra a ditadura se tornou também, em algum grau, contra o capitalismo. Com o fim da Ditadura, surgiu nossa Constituição que instituiu mais direitos, a carga tributária subiu de 20% para 35% do PIB e, em 2002, o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder, parece que coroando o sentimento esquerdista das décadas anteriores. Observando os dois mapas a seguir, conseguimos perceber uma clara coincidência entre liberalismo econômico e segurança pública, ou seja, os países mais economicamente livres são os mesmos que possuem baixa criminalidade. Será coincidência?


Taxa de homicídios pelo mundo
Índice de liberdade econômica pelo mundo

Certa vez li um texto filosófico sobre crimes, em que um autor defendia haver apenas um tipo de crime no mundo: o roubo. Roubar, segundo esse autor, seria retirar de alguém algo que não lhe pertencesse. Para ele, os mais diversos crimes eram, todos, roubos. Homicídio, por exemplo, seria roubar a vida de alguém. Estupro seria um roubo da dignidade ou do livre arbítrio de negar algo a alguém; plágio, roubo da produção intelectual; furto, roubo sem violência. E por aí seguiriam todos os crimes. Só haveria, portanto, um crime: o roubo. Não lembro quem escreveu, mas é um conceito interessante. 

Em qualquer situação, para haver roubo, é necessário haver posse. Só se rouba algo de alguém, se esse alguém possuir algo. Possuir algo pressupõe que coisas podem ser de alguém, ou seja, pressupõe a existência da propriedade. Só há "roubo", portanto, em uma sociedade que permite propriedades privadas. Há, no entanto, correntes de pensamento que são contra a propriedade privada. Os marxistas afirmam que os ricos possuem mais do que precisam. "Possuir mais do que precisa" levou à ideia de que posses deveriam ser confiscadas e redistribuídas. Para que ninguém possua mais do que o necessário, ou mais do que "o outro", chegaram a propor que propriedade privada não deveria existir. De modo interessante, não permitindo a existência de "propriedade", o marxismo acabou, a meu ver, com a possibilidade de "roubo", já que só se rouba de alguém algo que seja desse mesmo alguém.

Roubar um relógio Rolex de um artista rico da TV é roubo? Para ser roubo, o relógio precisa ser dele. Para um marxista, possuir um relógio Rolex é um luxo desnecessário e supérfluo. Se um rico não deveria ser dono de um Rolex, é roubo retirar o Rolex do rico? Muitos acreditam que o ladrão do Rolex não cometeu infração relevante, pois é vítima de uma sociedade desigual. Além disso, um Rolex a menos não significa nada para um milionário.

Há alguns meses uma jovem foi fotografada de costas, numa praia do Rio de Janeiro, no exato momento em que um jovem punha a mão em seu celular, que estava no bolso de trás de seu short. Seu celular roubado gerou muita discussão. 

http://oglobo.globo.com/rio/orla-da-zona-sul-voltou-ser-alvo-de-assaltos-nesta-segunda-feira-17558563

A imagem, impactante, foi divulgada amplamente, e muitos se solidarizaram com o jovem ladrão, pois ele aparentava ter poucas condições financeiras. Em outras palavras, tolerou-se o roubo do celular baseado no fato de o jovem ser economicamente desfavorecido. O roubo foi tolerado por muitos. Chegaram a culpar a jovem furtada, pois "quem mandou andar de iPhone na praia?". O fato de a jovem roubada ter-se manifestado como trabalhadora que havia comprado o celular, na verdade um smartphone mais simples, à prestação abrandou a tolerância para com o rapaz, como se a situação econômica da vítima fosse relevante para o correto julgamento do infrator. Por que houve quem defendesse que o rapaz poderia ter tido o direito de roubar aquele celular? Muitos dos defensores do rapaz são os mesmos que defendem que não deve haver propriedade privada. Em outras palavras, os que o defenderam são os mesmos que acreditam, consciente, ou inconscientemente, "não haver roubo", pois a posse daquele objeto seria ilegítima.

Sempre que o direito à posse for livre, haverá os que possuem mais do os outros. Para corrigir essa "injustiça", muitos são contra "o direito de possuir", ao menos, em parte. Os comunistas defenderam a não existência da propriedade privada (usurpação total das posses individuais); hoje em dia, os estatistas, defendem "impostos sobre grandes fortunas" (ou seja, a usurpação parcial das posses individuais - muda o quantitativo, mas o qualitativo de proibir posses se mantém). Será que uma educação baseada na premissa de que propriedade privada não deveria existir (totalmente, como dizem os comunistas, ou parcialmente, como defendem os estatistas) não torna, automaticamente, aceitável o roubo? Como respeitar algo do outro, se a educação disse que não é correto "possuir"? Se "ser dono" é errado, qual o problema de subtrair algo de alguém? Se não é correto possuir, qual o problema em usurpar um terreno desocupado? Ou reivindicar uma fazenda de um fazendeiro rico? Quem sabe, não sendo correto haver propriedade, deixa de ser errado roubar uma bolsa no semáforo, deixa de ser errado clonar o cartão de crédito de outra pessoa. Talvez deixe de ser errado copiar um livro, já que o conhecimento deveria ser sempre de todos. Sendo assim, por que é errado tirar vidas? Será coincidência que o Brasil, terra onde os intelectuais culpam os "que tem posse" por todas as mazelas, seja campeão mundial no número de pessoas mortas por homicídios?

Diferentemente de seus pais ou avós, educados no Brasil católico que ameaçava os pecadores com a punição do inferno, o rapaz do roubo do celular foi educado (ou ao menos frequentou a escola) no Brasil dos últimos anos. Sabe-se que há um predomínio maciço do pensamento marxista-estatizante (ou esquerdista) entre os professores do Brasil pelo menos desde a Ditadura Militar. Quanto de influência marxista este jovem recebeu é difícil de se saber, mas talvez ele também ache que não é "justo" uns terem mais do que outros. Talvez, inconscientemente, ele acredite que a propriedade privada não deveria existir, ao menos em parte, então, assim, ele não roubou, pois o celular não era, ou não deveria ser, daquela moça. O rapaz que a roubou pode achar mesmo que roubar não é errado. Se roubar é permitido, então é por isso que o Brasil tem 60.000 homicídios (roubos de vida) por ano? Acredito na Ciência, nos estudos científicos, como melhor maneira de se chegar a uma verdade. Infelizmente, nunca fiz e nem encontrei estudos sobre esta minha teoria, mas, do ponto de vista da temporalidade, da coerência e da plausibilidade, a relação entre esquerdismo e violência deve ser levada à consideração.

sábado, 30 de julho de 2016

Sem Partido ou Sem História?

A educação brasileira nunca me fez hesitar em falar ou refletir como é sua aplicação, muito menos sua grande importância. Tanto é que minha opinião já visitou lados diferentes.

Nesses últimos dias, me deparei novamente com o tema ao ler sobre o projeto de lei do Senado, do senador Magno Malta, que pretende instituir o "Programa Escola Sem Partido" que gerou divergências principalmente por tratar de ideologias e opiniões tão opostas.

Escola Sem Partido propõe que sejam fixados em salas de aula cartazes com os deveres do professor. Impedindo qualquer afronta às convicções religiosas ou à moral dos pais e apresentação e conteúdo ideológico para os estudantes. Mas, primeiro vamos partir do ponto em que os deveres do professor já existem e decorrem da nossa Constituição Federal e também da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, em que, basicamente se trata da liberdade de consciência e crença, da liberdade de aprender dos alunos, do princípio constitucional da neutralidade política, religiosa e ideológica do Estado e por fim o pluralismo de ideias, citado no art. 206, III da CF.

Então por que não aumentar a pluralidade ao invés de restringi-la? Por que acreditar que cercear a liberdade de pensamento é uma boa alternativa?

Dessa vez o tema acompanha uma opinião clara, como não?

Educação esteve por muitos anos e  ainda está presente na minha vida com grande influência. Dentro da escola, que foi um dos poucos ambientes na sociedade em que obtive a condição de conhecer várias visões de mundo.

É como se a importância e preocupação em definir o que de fato é uma doutrinação estivesse sendo trocada pelo desejo de apenas proibi-la.

Como restaria a possibilidade de um conhecimento que permita à pessoa encontrar seus próprios valores se for colocado, no limite, no plano dos valores de não contestar a família e até mesmo a igreja?

Será que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche estaria certo ou errado ao falar que "convém ser rico em oposições, pois só a esse preço se é fecundo."?


Bom, é por isso que matutamos.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Enquete

Cansado da tradicional disputa pt X psdb, este blog resolveu deslocar o foco para outra querela: e se mudássemos nosso sistema de governo? O cenário da contenda aqui é parlamentarismo X presidencialismo.
Para começar, alguns conceitos básicos sobre o Brasil:


  • Forma de governo: república
  • Sistema de governo: presidencialista
  • Forma de Estado: federação


Não custa lembrar que, na condição de mera dona de casa, não sou nenhuma cientista política (confira meu currículo abaixo). Entretanto, posso lhes assegurar uma coisa: convém não confundir Estado com governo.
Em 1993, por meio de uma determinação da Constituição de 1988 (art. 2º do ADCT), o Brasil foi às urnas para um plebiscito que resultou na escolha do presidencialismo como sistema, e da república como forma de governo. Contudo, o assunto nunca morreu por completo: muitos defendem mudanças na decisão de 23 anos atrás, até porque não há vedação constitucional a uma nova consulta popular.
 
Isto posto, vamos aos dados. Em linhas gerais:

No parlamentarismo, não há uma separação rigorosa entre os poderes Executivo e Legislativo. Há duas figuras distintas: o chefe de governo e o chefe de Estado, este último normalmente uma figura simbólica, e o primeiro é o sujeito responsável pelo governo perante o parlamento, sendo quem efetivamente governa e administra, podendo ser destituído pelo parlamento.
Há uma preponderância do Legislativo sobre os outros dois poderes. O Executivo é um mero delegado da maioria parlamentar, a quem se atribui a função de governar em consonância com um programa aprovado pela maioria da casa legislativa. Para alguns, há menor facilidade de corrupção, por conta da diluição do poder.
Nem o Judiciário pode ir contra o congresso, pois, num sistema parlamentarista puro, a Constituição não é rígida[2]. Isto é: em sendo uma lei declarada inconstitucional, o Legislativo pode simplesmente mudar a Constituição.
“Estabelece-se um processo político semelhante a uma pirâmide de três degraus: na base, está o titular da soberania, o povo; sobre esta base, assenta-se um órgão de representação, o parlamento; e no vértice, sobre esta camada intermediária, instala-se um colégio mais reduzido, uma ‘comissão de confiança’ do parlamento, o governo (gabinete).” (Sandra Starling)
“Na sua forma ideal, o primeiro-ministro compartilha as decisões com seu gabinete e também com um presidente eleito pelo voto direto mas acima das disputas partidárias.” (Plínio Sampaio) Para tanto, o gabinete tem que ser constituído pela maioria dos representantes populares no legislativo, em torno de um programa de governo debatido e aprovado no parlamento.
A vantagem é a possibilidade de dissolução de um governo fraco, sem ter que se esperar até as próximas eleições. Caindo o governo, a casa legislativa forma um novo gabinete. Em não conseguindo, o próprio Congresso é dissolvido, e eleições são antecipadas. O arbitro dessas questões é o chefe de Estado.

Já o presidencialismo, amparado nas ideias de Montesquieu, observa uma separação nítida entre o Executivo e o Legislativo, preservando a harmonia entre os três poderes, que são independentes entre si, porém não de forma absoluta.
Neste sistema, o presidente reúne as funções de chefe de governo e chefe de Estado. O chefe do Executivo é eleito diretamente pelo sufrágio popular e tem um mandato independente do Parlamento. Ou seja: o presidente e a maioria da assembleia podem ser de partidos distintos. O presidencialismo difere do parlamentarismo justamente pelas origens distintas do poder Executivo e do poder Legislativo. Ao passo que no parlamentarismo o Executivo surge da correlação de forças entre os partidos eleitos para o Parlamento (já que é dado à casa legislativa montar o gabinete), no presidencialismo o Executivo deriva da eleição direta do presidente pelos cidadãos.
Compete ao presidente formar o gabinete (ministério), enquanto que, no outro sistema, essa tarefa cabe ao partido/coligação vitorioso(a). Esse gabinete indicado pelo presidente permanece até que haja novas eleições presidenciais, e seus indicados não precisam ser membros do parlamento nem agente públicos de carreira. No parlamentarismo, o gabinete é escolhido pela maioria, a qual representa a maioria popular.

Há, ainda, um meio termo: o semipresidencialismo, em que as duas figuras – chefe de governo e chefe de Estado –, dividem o poder. Ou seja: o chefe de estado não é mera figura decorativa, e é eleito pelo povo.

Temos, por fim, uma opção bem nossa: presidencialismo de coalizão[3]. Não é propriamente um sistema de governo; é mais uma característica de um presidencialismo deturpado. O chefe de governo (presidente), apesar de eleito diretamente, é refém do parlamento, dada a quantidade de partidos em atuação no Congresso. Este, por sua vez, não demonstra interesse em fazer as mudanças necessárias, ainda que tenha força para se opor ao chefe do Executivo.
Sua peculiaridade deve-se ao fato de conjugar o pacto interpartidos do parlamentarismo (é comum a formação de coalizões a fim de obter a maioria das cadeiras) e a eleição direta para chefe de governo do presidencialismo. Isso porque, sem uma coalizão a lhe dar base no Congresso, o presidente “reina, mas não governa”. Essa base é conseguida, por exemplo, através da distribuição de cargos em ministérios.

Desvantagens do presidencialismo:
  • Hipercentralização de poder, e possibilidade de cooptação da autoridade central. Tanto mais no Brasil, onde a sociedade se encontra sob a primazia dos grupos monopolistas financeiros.
  • O ministério surge da decisão absoluta do presidente.
  • A presidência é mitificada como a origem dos problemas e das soluções.
  • Para funcionar, depende da submissão do Congresso ao presidente. A existência de um parlamento em oposição ao governo gera graves conflitos administrativos, sobretudo se o chefe do Executivo, usando de uma prerrogativa que lhe é inerente neste sistema, veta matérias legais aprovadas na casa legislativa.

Desvantagens do parlamentarismo:
  • No parlamento, há representação apenas formal do povo, sendo que esses representantes falarão pelo povo no momento de escolha do chefe de governo e de formação do gabinete.
  • Só faz realmente sentido se reservar para consulta popular direta (plebiscito e referendo) os temas relevantes.
  • No Brasil, uma das casas legislativas teria que ser extinta, pois o parlamentarismo é, via de regra, unicameral.
  • Não impede a concentração de poder em uma pessoa[4].
  • Como o chefe de governo não é eleito pelo povo (e sim pelo parlamento), desprestigia-se a soberania popular. Por isso, diz-se que a legitimidade do governo é maior no presidencialismo, já que o consenso democrático deriva de uma relação direta entre os cidadãos e o titular da chefia de governo.
  • Esse suposto conluio entre o Legislativo e o Executivo não é saudável, pois a oposição ao governo é necessária para criar um ambiente mais democrático.
  • Atribuir a chefia de governo e a chefia de estado a pessoas distintas pode gerar crises institucionais.

Sim, é confuso, até porque os sistemas de governo analisados acima possuem infinitas variações a depender do país e do momento histórico em que são aplicados. Não tenho ferramenta para esgotar o tema.

“Qualquer sistema democrático de governo será apto a resolver os problemas do povo, desde que funcione.” (Afonso Arinos)



[2] Um exemplo é a Inglaterra, cuja Constituição é consuetudinária e não-escrita.
[3] Expressão cunhada por Sérgio Abranches em 1988.
[4] Hitler e Mussolini eram primeiros-ministros.